Na madrugada do Oscar fui dormir confusa a respeito do meu próprio discernimento sobre filmes. “Será que estou ficando obtusa para não enxergar toda a qualidade artística que os críticos de todo o mundo vêem em ‘Guerra ao Terror’?”, perguntei-me.
Na manhã seguinte, leio um dos críticos da Folha comparar o resultado do Oscar à vitória do jovem Davi contra o gigante Golias (hã?! Que exagero!).
Em seguida, uma amiga - que odeia cinema e não assistiu a nenhum dos filmes concorrentes - disse ter ficado feliz com o resultado porque ouviu o comentarista da Globo declarar que a vitória de “Guerra ao Terror” significa que o cinema está escolhendo o caminho das produções alternativas, baratas e de qualidade artística. “Ah! Eu sempre fico com o artesanal, o de qualidade”.
Ora, o comentarista José Wilker apenas repetiu, como um papagaio, o que estava sendo pregado em toda a crítica brasileira: que o Oscar deste ano simbolizava um embate entre o cinema milionário e industrial de “Avatar” versus cinema barato e bom de “Guerra ao Terror”. Ou seja, estabeleceu-se uma unanimidade a partir de uma metáfora que caiu bem nos textos jornalísticos.
Minha amiga não assistiu aos filmes, mas já repete este “pré-conceito” (aquele mesmo que formamos sobre uma coisa, antes de mesmo de conhecermos a coisa de verdade) por aí, como o José Wilker. E mesmo que ela venha a assistir os filmes sobre os quais já tem uma opinião “emprestada”, é provável que não será mais sua avaliação simples e pura que julgará sua preferência por um ou outro, mas este preconceito. Ou seja, sua preferência terá sido manipulada.
Isso me faz lembrar como muitos coleguinhas metem o pau na série literária “Harry Potter” sem sequer terem lido um capítulo de qualquer dos sete livros de J.K. Rowling. Também “emprestaram” a opinião comum de que “o que faz sucesso de massa não presta”. Que contraditório, não? Se essas pessoas acham que a unanimidade é burra, porque acolhem tão facilmente outra unanimidade... a da crítica especializada?
Nada contra unanimidades. Também acho Paulo Coelho (outra unanimidade - positiva junto ao público e negativa junto à crítica) uma droga, mas eu li um livro dele para formar esta opinião. Sou pura e simplesmente contra os preconceitos, que fazem as pessoas terem suas opiniões manipuladas sem perceberem. Simplesmente acham um conceito bonito e o assumem como seu, multiplicando-o cegamente.
Bom, o que isto tem a ver com o resultado do Oscar? É que esta reflexão me fez questionar se os membros da Academia, e até uma parte da crítica, não estão sob o mesmo efeito em cadeia criado pelo senso comum da tal metáfora – Davi x Golias -, que também deve ter sido repetida à exaustão nos bastidores da disputa pelo Oscar. É politicamente correto ficar do lado de Davi.
Desculpem se parece que fico procurando consolo ou justificativas para meus preferidos não terem ganho o Oscar –pra falar a verdade eu nem tinha preferidos entre os prêmios principais-, mas não sou a única a achar que “Avatar” não é esta “droga” toda de filme (e o crítico Inácio Araújo concorda comigo) e nem que “Guerra ao Terror” é assim esta obra-prima clássica, que entrará para a história do cinema. São duas obras diferentes, cada uma com seu valor, nenhuma melhor que a outra. Por isso acho este conceito de embate um artifício sensacionalista, simplista, mediocrizante.
Tudo bem, minha opinião pessoal sobre cada filme concorrente destoa da maioria, mas é formada a partir da experiência de ter assistido a todos os candidatos ao Oscar. Ninguém é obrigado a concordar, mas é importante que, ao menos, os que discordam tenham argumentos próprios, embasados no seu conhecimento sobre a obra, e não numa opinião “emprestada” de outros. Não só no cinema, mas em todas as esferas da cultura, são as reflexões e opiniões genuínas que dão início aos grandes movimentos.