A pedido de meu amigo Paulo Cruz, hoje falarei de um dos meus cineastas favoritos: Alfred Hitchcock, também conhecido como o mestre do suspense. Gosto de sua obra há tanto tempo que não me lembro quando nem qual foi o primeiro filme dele que assisti na vida. Só tenho certeza de que foi muito jovem.
Lembro-me de, à época da faculdade - quando absorvia tudo quanto era informação sobre cinema como uma “esponja” -, ter pego vários filmes dele em VHS para rever. Tive a grata surpresa de sacar nuances psicológicas em seus personagens que não havia notado em criança.
Não teve jeito, virei fã de carteirinha! O que me rendeu dois presentes maravilhosos de um amigo muito querido: uma caixa com cinco dos seus filmes em DVD (“A Tortura do Silêncio”, “Pânico nos Bastidores”, “Suspeita” e “Disque M para matar”) e –tesouro dos tesouros!- o livro “Hitchcock/Truffaut: Entrevistas”, que reúne 368 páginas de entrevistas que o cineasta François Truffaut fez com o diretor durante vários dias (fala, Fer, se também não é de invejar...). Meu outro amigo, Gui, emprestou outra caixa com mais cinco títulos para copiar.
Interessante saber por Truffaut que Hitchcock foi considerado um cineasta menor e comercial à sua época, algo que considero insano. “Em 1962, estando em Nova York para apresentar ‘Jules e Jim’, percebi que todo jornalista me fazia a mesma pergunta: 'Por que os críticos da Cahiers du Cinema (até hoje a mais famosa revista de cinema do mundo) levam Hitchcock a sério? Ele é rico, faz sucesso, mas seus filmes não têm substância'”, narra o francês, no prólogo do livro de entrevista.
O tempo – com a ajuda do próprio Truffaut – se encarregou de fazer justiça à obra deste inglês excêntrico, que soube como poucos explorar e manipular os medos escondidos dentro de cada espectador, muitas vezes apenas pela sugestão.
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E como era mestre em criar cenas apavorantes sem precisar mostrar rios de sangue ou rostos deformados, esse Hitchcock! Em seu cinema, o medo se constrói mais a partir do que não é visto – como em “Psicose”, a mãe de Anthony Perkins, que nunca se viu, ou a clássica cena do esfaqueamento de Janet Leigh no banheiro, que só temos certeza que se concretizou ao vermos o filete escuro do sangue escorrer para o ralo da banheira.
Há muitos aspectos que, em minha opinião, tornam o cinema de Hitchcock único. Para não me prolongar demais nesta postagem, só lembrarei um pouco mais da forma genial como ele extraía terror de situações caras ao “modo de vida americano” e do desespero de personagens comuns expostos a situações-limites, como o fez Kafka na literatura.
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Que o diga a adolescente Teresa Wright em “A Sombra de uma dúvida”, feliz em sua ingenuidade até começar a desconfiar que o tio favorito pode ser um assassino em série e o mundo passar a lhe aparecer exatamente como é: nada só preto ou só branco.
Em um de meus filmes favoritos, “A Tortura do Silêncio”, Montgomery Clift sofre o diabo guardando a confissão de um assassino e resiste a profanar o sigilo sagrado mesmo ao tornar-se suspeito do crime em questão – o tipo de ironia a que Hitchcock adorava submeter seus personagens.
Mas é na exploração da culpa que o diretor se supera na tortura psicológica. Basta ver o inferno que se torna a vida do tenista de “Pacto Sinistro”, depois que aceita, de brincadeira, que um desconhecido prometa matar sua esposa, de quem quer se divorciar, em troca do assassinato do pai dele.
E “Festim diabólico”, então... um bem sucedido exercício estilístico –o filme é rodado em uma única locação, em uma única tomada, sem interrupções (apenas duas pausas para a troca de rolos de filmes na câmera)- que acabou sendo também o seu “Crime e castigo”, por propor o mesmo desafio filosófico da obra de Dostoiéviski. Só que no filme são dois os universitários que decidem cometer um assassinato só para provar uma teoria filosófica, inspirados no professor que admiram. Genial!
Prazer maior do que assistir seus filmes, só mesmo o de ler comentários de Hitchcock em pessoa sobre cada um deles - como criou tal cena ou como outra ficou além ou aquém do pretendido, etc... – na entrevista que ele deu a Truffaut. Melhor ainda: ler o filme com uma pilha de DVDs de seus filmes ao lado.
(* Dedico esta postagem ao meu amigo Eduardo)