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Tennessee Williams: frases

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Como prometido no post "Palavras como lâminas: a dramaturgia de Tennessee Williams", abaixo relaciono algumas das frases que considero mais interessantes entre as de autoria do dramaturgo, tanto escritas em suas obras quanto ditas por ele em diferentes ocasiões e entrevistas.
Minha pesquisa se ateve apenas aos quatro filmes que tenho em casa, por isso, peço que quem se lembrar de outras que valha a pena destacar, por favor, contribuam. Vou acrescentando dentro do próprio post, com menção à fonte que enviou.
Seguem as frases, divididas por títulos de filmes:
 
‘De repente, no último verão’
 
“A natureza não foi criada à imagem da compaixão humana”
Da personagem de Katherine Hepburn filosofando sobre os pássaros que assistiu comerem filhotes de tartarugas
 
“Todos adoravam Sebastian. Mulheres, homens, crianças, animal, mineral, vegetal... O Sebastian era uma vocação, não era um homem”
Da personagem de Elisabeth Taylor sobre o primo ‘fantasma’ de quem se fala o filme inteiro
 
“O amor não é isso? Usar as pessoas? E talvez o ódio seja isso... não conseguir usar as pessoas”
Da mesma, refletindo sobre a forma muito peculiar de amar de seus parentes
 
 
‘Esta mulher é proibida’
 

"Talvez Deus, quando deu vida a todos, não me tenha dado vida suficiente"

A personagem de Natalie Wood manifesta seu desencanto

 
 
‘Gata em teto de zinco quente’
 
“Eu não vivo com você! Só dividimos a mesma jaula!”
De Elisabeth Taylor para Paul Newman sobre seu casamento assexuado (contribuição de José Eduardo Carvalho)
 
“Não se constrói um império recordando rostos”
Big Daddy explica a Paul Newman porque nunca se interessou em conhecer seus funcionários
 
“Os homens que constroem impérios morrem e os impérios também”
Paul Newman retrucando a frase acima
 
 
‘Um Bonde chamado desejo’
 
“Invento muitas lorotas. Mas 50% do charme de uma mulher é ilusão”
A personagem Blanche (Vivien Leight) manifesta a visão do autor sobre o charme feminino
 
“Não tolero uma lâmpada descoberta, assim como não tolero grosserias...”
Blanche justifica sua aversão à luz que revela a verdadeira idade de seu rosto
 
“Não pode espancar uma mulher e chamá-la de volta. Ela não virá!”
Da vizinha que abriga Stella Dubois, mostrando que entende muito pouco de paixão doentia
 
“Seja você quem for, sempre confiei na bondade de estranhos”
Blanche para o agente psiquiátrico que fora lhe buscar (contribuição de José Eduardo Carvalho)
 
 
Do próprio (frases do autor)
 
"Para mim, férias deveria ser um ano sim, um ano não. No ano de trabalho, um mês sim, um mês não. No mês de trabalho, uma semana sim, outra não. E, na semana de trabalho, um dia sim, outro não"
(contribuição de José Eduardo Carvalho)
 
“Ninguém vale nada enquanto não foi amado”
 
“O tempo corre em direção com sua bandeja de hospital repleta de narcóticos, deixando-nos preparados para a sua operação inevitável e fatal”
 
“Penso que o ódio é um sentimento que só pode existir na ausência da inteligência. Os bons médicos não odeiam os seus doentes”
 
“Uma prece pelos rebeldes de coração enjaulado”
 
“É possível ser jovem sem ter dinheiro, mas não se pode ser velho sem ele”

 

 

POSTAGEM RELACIONADA: Palavras como lâminas: a dramaturgia de Tennessee Williams

‘Filha de peixe...’: Julie Gavras mostra a que veio

domingo, 23 de novembro de 2008

 

A indústria do cinema está cheia de exemplos de filhos de cineastas que acabam abraçando o ofício do pai - alguns com mais outros com menos vocação, mas todos com uma preocupação sôfrega em fugir ao estilo do genitor, talvez no intuito de evitar as inexoráveis comparações.

Sem nenhuma pesquisa prévia, alguns casos me vêm rapidamente à memória, como Sofia Coppola (filha de Francis Ford Coppola), de “Encontros e Desencontros” e “Maria Antonieta”; Nick Cassavettes (John Cassavettes), de “Diário de uma paixão” e “A Outra Face”; e Marina Person (Sergio Person), que acaba de estrear com o elogiado documentário sobre o pai, “Person” (não ouvi mais falar de Jennifer Lynch – filha de David Lynch - desde sua estréia com o mal sucedido “Encaixotando Helena”).
 
Esta semana tive o prazer de conhecer o primeiro trabalho de uma “filha de peixe” dos bem graúdos: Julie Gavras, que carrega os genes de Constantin Costa-Gavras , diretor grego (naturalizado francês) de Z”, Desaparecido”, “Estado de Sítio”, entre outras pérolas de um cinema político consistente, crítico e sem medo de assumir posições - quando presidiu o Festival de Berlim, disse em entrevista que "todo cinema é político" (quem dera!!!).
 
O que mais me inspirou respeito em sua estréia na direção foi que Julie nem tentou fugir ao tema preferido do pai – a política. Mas este é o único ponto de contato entre as obras de um e outra. “A Culpa é do Fidel” é um autêntico filme autoral, que não lembra em nada a sisudez com que Costa-Gavras orquestra suas produções (nenhuma crítica aí, muito ao contrário).
 
Leve, mas nada acéfalo, "A Culpa é do Fidel" mostra as transformações operadas no cotidiano de uma família, na França da década de 70, quando os pais –um advogado espanhol (Stefano Accorsi) e uma jornalista francesa (outra ‘filha de peixe’, Julie Depardieu, filha do ator francês Gerard Depardieu) - voltam de uma viagem pela América do Sul convertidos ao socialismo.
 
Tudo é colocado para o espectador do ponto de vista da filha de 9 anos, Anna (Nina Kervel-Bey), que começa o filme feliz com o seu cotidiano de classe média alta. Seu mundo perfeito começa a ficar confuso logo no dia da chegada dos pais da grande viagem. Ela tem dificuldade em reconhecê-los no homem barbudo e sem gravata e na loira em trajes típicos chilenos que a esperam à porta do colégio de freiras em que estuda desde muito pequena.
 
Sem “mastigar nada” para o espectador, Julie Gavras nos coloca bem ao lado de Anna (inclusive nas tomadas de câmera, que quase sempre focaliza os adultos de baixo para cima, para acentuar a perspectiva da menina). Acompanhamos solidários sua confusão e raiva diante das mudanças que ela é obrigada a “engolir” sem muito tempo para digerir, como a dispensa da babá cubana que a acompanhou desde pequena, a mudança da família para um apartamento menor - onde ela tem que dividir o quarto e o beliche com o irmão mais novo - e a suspensão de suas aulas de catecismo no colégio católico (que ela só não foi obrigada a abandonar sob esta condição).
 
Ao mesmo tempo, novos personagens são introduzidos no cotidiano da família: outros barbudos –os “malditos comunistas”, nas palavras da antiga babá, que culpava Fidel Castro por tudo de ruim que lhe aconteceu em seu país natal (daí o nome do filme)-, que passam madrugadas em debates com o pai, e mulheres que se fecham com a mãe no escritório improvisado na pequena sala de jantar para contar sobre suas vidas para um gravador ligado.
 
Ao mesmo tempo que causa revolta, o choque das mudanças também faz Anna “acordar” para realidades que ela até então ignorava e, conseqüentemente, provoca reflexão. O que era difícil de entender vai ficando mais fácil com o tempo – como, por exemplo, por que exercer o tal “espírito de grupo” em uma passeata é certo, e exercê-lo em sala de aula (levantando a mão junto com o grupo para uma resposta que ela sabia estar errada) é ruim?
 
No momento certo, será a própria Anna quem proporá sua mudança de colégio, após perceber que seus questionamentos sobre o que é ensinado por meio de fábulas infantis em sala de aula passam a não ser aceitáveis pelas freiras. Diante do receio da mãe em tirá-la da escola que ela sempre gostou tanto, a lógica simples da criança vem em seu socorro: “Será como mudar de babá (...) é difícil no começo, mas se a nova babá é boa, acabamos nos acostumando”, reflete uma Anna bem mais pensante do que a do início do filme.
 

Enfim, a “filha de peixe" mostrou – e muito bem - a que veio. Fiquem de olho em Julie Gavras.

Palavras como lâminas: a dramaturgia de Tennessee Williams

sábado, 15 de novembro de 2008

Logo nos primeiros 10 minutos do filme “Gata em Teto de Zinco Quente” o espectador já recebe, com um primor de concisão e densidade dramatúrgica, as principais informações sobre os personagens: que o principal é um alcoólatra, seu irmão um tolo, a cunhada uma parideira interesseira, a esposa linda e perspicaz, mas desprezada ... e todos –menos ele- estão de olho na herança do patriarca doente.

 

Não se irrite pensando que já contei o filme todo, porque os melhores e mais importantes momentos ainda estão por vir nos 97 minutos seguintes (atenção especial aos diálogos de “acerto de contas” entre o protagonista e o patriarca em questão).
 
Só quis dar uma amostra do grande talento com que o dramaturgo norte-americano Tennessee Williams –que assina a peça roteirizada para este filme de Richard Brooks- tece histórias fortes com muito poucos recursos cênicos, em tomadas alicerçadas principalmente em diálogos robustos, inteligentes e carregados de significados – traços de sua verve de bem-sucedido autor teatral (escreveu mais de 30 peças ao longo da carreira).
 
A dramaturgia de Williams é tão forte que não me importa se suas peças adaptadas para o cinema tiveram assinatura de outras pessoas no roteiro e na direção. Todas têm a SUA ASSINATURA impressa na forma de palavras que parecem lâminas jorrando em diálogos cortantes, que despem os personagens de suas roupagens de normalidade para mostrar suas angústias, medos, desejos, culpas e pecados. Diálogos estes que também revelam o contorno psicológico que o autor desenha meticulosamente para cada personagem.
 
É verdade que só “feras” pegaram a direção de filmes com histórias de Williams, como os mestres John Huston (“Noite do Iguana”), Elia Kazan (“Boneca de Carne” e “Um Bonde Chamado Desejo”, que no Brasil recebeu o ridículo título de “Uma Rua Chamada Pecado”) e Joseph L. Mankiewicz (“De Repente, no Último Verão”), além dos ótimos Sidney Pollack (“Esta Mulher é Proibida”), George Hoy Hill (“Contramarcha Nupcial”) e Brooks (além de “Gata em teto...”, “Doce Pássaro da Juventude”), entre outros menores, mas não menos talentosos (para acessar a ficha de todos estes títulos na página do e-pipoca dedicada ao autor, clique aqui). Mesmo assim, para mim também não deixam de ser todos “filmes de Tennessee Williams”.
 
O dramaturgo também roteirizou muitas de suas peças para a tela grande, a maioria em parceria com outros roteiristas mais afeitos à linguagem cinematográfica. As mais famosas são a já citada “Gata em Teto de Zinco Quente” (1958) e “Um Bonde Chamado Desejo” (recuso-me a usar o título do Brasil), que imortalizou as atuações memoráveis de Vivien Leight (a Scarlett O’Hara de “E o Vento Levou”) e Marlon Brando (dispensa comentários). Aliás, que show de interpretação eles dão!!!
 
Uma curiosidade sobre “Em Roma na Primavera”, cuja primeira versão, de 1961, também teve Vivien Leigh e um jovem Warren Beatty nos papéis principais, é que o roteiro foi refilmado em 2003 com Helen Mirren (Oscar de Melhor Atriz por “A Rainha”) e Olivier Martinez (o amante de “Infidelidade”) nos mesmos papéis e ainda a participação do brasileiro Rodrigo Santoro no elenco. Como foi feito para a TV, porém, o Brasil não o viu –nem vai ver- na tela grande (não sei se saiu em DVD).
 
Um jeito de dizer claramente, sem dizer de fato
 
Outra característica que considero genial na obra deste escritor conhecidamente homossexual é sua habilidade em abordar tabus sexuais de uma forma suave e subliminar. Isto numa época em que a sociedade que consumia teatro e cinema ainda era muito pudica e a censura rígida quanto à chamada “moral e os bons costumes”.
 
Era preciso prestar muita atenção a certas metáforas inseridas nos diálogos e também nas construções sugestivas de algumas cenas para “enxergar” as situações que envolviam sexo. Graças a este modo de dizer claramente, sem dizer de fato, os mais ingênuos simplesmente não entendiam a totalidade do que era exposto, mas o pouco que entendiam era o bastante para não perderem o impacto da história.
 
EXEMPLO 1: na primeira vez que assisti a “Um Bonde Chamado Desejo”, muito jovem ainda, na cena mais forte do filme só entendi que Leigh e Brando se enfrentaram e ela saiu subjugada. Só na segunda vez que o vi, mais velha e amadurecida, compreendi o modo como ela foi subjugada: houve um estupro ali (nada é mostrado claramente, mas tudo na cena sugere esta violência, inclusive a metáfora do espelho quebrado refletindo Blanche inerte nos braços de Stanley).
Também só entendi da segunda vez que Blanche era ninfomaníaca (uns pedaços de diálogos dela aqui, uma tentativa de sedução de um jovem acolá são as evidências claras do fato não declarado). O filme, aliás, é todo sobre desejo e suas implicações, como o nome “ORIGINAL” sugere (ainda faço um post só sobre os nomes absurdos que os filmes estrangeiros ganham no Brasil).
Consideradas as minhas perspectivas em cada ocasião, a importância da cena mais forte foi assimilada por mim em ambas as vezes, e saber ou não sobre a compulsão sexual de Blanche não diminuiu a força da história para mim em nenhuma delas.
 
EXEMPLO 2: Em “De Repente, no Último Verão”, Katherine Hepburn (divina, como sempre) acaba de perder o filho adulto - Sebastian (de quem se fala o filme todo, mas nunca se vê) - e entrega a sobrinha com tendências suicidas (Elisabeth Taylor em um dos muitos papéis de Williams que desempenhou) aos cuidados do psiquiatra Montgomery Clift, confiando que ele a tratará com lobotomia (separação cirúrgica dos lóbulos frontais do cérebro, que se faz em doentes mentais violentos, tornando-os mansos, numa espécie de "anestesia permanente").
Quando o psiquiatra inicia uma terapia com a paciente, porém, médico e espectador vão descobrindo juntos que, de todos os segredos escondidos na história daquela família, os da instável sobrinha não são os mais escandalosos.
 
Crítico do establishment
 
Outro traço da dramaturgia de Williams é a crítica ácida e impiedosa à ordem estabelecida na sociedade norte-americana, com sua ideologia dominante impregnada de alienação e individualismo. É verdade que o conjunto de sua obra descreve mais a cultura sulista dos EUA, filho que era daquela região do país (nascido no Mississipi, viveu também no Missouri), mas ele coloca todo o pensamento estadunidense naquele microscosmo (leia mais sobre este traço de sua obra na tese “Memória Histórica na Dramaturgia de Tennessee Williams”, disponibilizada na internet em formato pdf).
 
Eu teria muito ainda a dizer sobre as dezenas de outros filmes baseados em textos de Tennessee Williams, pois todos, sem exceção, valem a pena ser vistos, mas este post ia ficar insuportavelmente mais longo do que já está. Encerro, então, com uma cena de “De Repente, no Último Verão”, que dá uma boa amostra dos tais diálogos cortantes e da habilidade do autor em abordar subliminarmente um certo tabu sexual (adivinhe qual prestando atenção ao diálogo entre Hepburn e Taylor). 
 
 
POSTAGEM RELACIONADA: "Tennessee Williams: frases"
 

 

Mais atores-diretores...

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Como prometido, dou continuidade ao tema atores-diretores. Termino o bloco dos americanos com Tim Robbins, de quem assisti aos ótimos “Bob Roberts” e “Os Últimos Passos de um homem”. Os sites brasileiros especializados em cinema também creditam a ele “O Poder vai dançar”, de 1999, que passou desapercebido por aqui (por isso mesmo só soube dele agora, mas vou procurar o DVD).

 

Assisti a “Bob Roberts” ainda mal refeita da perplexidade de ver o Brasil inteiro eleger um Fernando Collor de Mello sob a influência de sua eficiente campanha de marketing. Estava saindo da faculdade de Jornalismo, onde uma das disciplinas nos deu como lição de casa acompanhar com olhar crítico a cobertura que os meios de comunicação faziam das eleições presidenciais de 1989 (como todos caíram –muitos conscientemente- nas estratégias de marketing do super-candidato!!!).
 
Bem, mas estou contando isso para dizer como foi catártico assistir, em “Bob Roberts”, ao desmascaramento da engrenagem marqueteira que se move por trás de uma campanha política, capaz de transformar um candidato “vazio” de propostas e consciência cívica na “melhor escolha”. O título do filme é o nome do candidato, que a câmara acompanha com ritmo e enquadramentos de documentário. O próprio Tim Robbins o interpreta.
O filme faz tanto uma crítica ao sistema quanto dá um “chacoalhão” no cidadão comum, sempre presa muito fácil dos esquemas de marketing da mídia.
 
Os Últimos passos de um homem” é um drama comovente que acompanha a relação que se estabelece entre um jovem condenado à morte (mais uma vez, Sean Penn, ótimo como sempre) e uma freira que decide visitá-lo após responder suas cartas. Esposa do diretor, Susan Sarandon interpretou a freira sem usar maquiagem em nenhuma cena. Ganhou um Oscar pelo papel.
 
Inspirado no livro de não-ficção escrito pela irmã Helen Prejean, o filme é surpreendente do começo ao fim. Quando a freira aceita o papel de guia espiritual do condenado, aceita também conhecer o mundo dele e a revolta que os crimes pelos quais é acusado despertaram nas famílias das vítimas. Nunca, em nenhum momento, ela o julga. É nas longas conversas e debates entre eles que se dá sua sutil e suave influência.
Sem ser doutrinário, o filme levanta questões como a natureza do mal e o poder da redenção, fazendo o espectador parar para pensar em temas controversos, como a pena de morte.  O que o torna brilhante é o fato de Robbins mostrar, com isenção e inteligência, todos os lados de um mesmo tema muito complexo.
 
Mathieu Kassovitz
 
Só assisti a dois dos cinco filmes com direção creditada ao ator francês Mathieu Kassovitz (o pretendido de Audrey Tatou em “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”) e gostei apenas de “O Ódio”, que lhe rendeu a palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 1996 (para quem não sabe, um dos festivais de cinema mais respeitados por cinéfilos e profissionais do gênero mundo afora).
 
Normalmente desvio do gênero suspense policial e de qualquer híbrido entre eles - tiroteios, perseguições de carro e “jogos de gato e rato” são tão entediantes para mim quanto os “filmes de luluzinha” para a platéia masculina-, mas “O Ódio” compensa a alta dose de testosterona com um roteiro bem amarrado sobre três imigrantes que tentam sobreviver numa Paris banhada pelo sangue dos conflitos raciais. O roteiro acompanha os personagens durante o dia seguinte a um violento embate entre policiais e imigrantes. Faz pensar.
 
Todos os filmes dirigidos por Kassovitz são do mesmo gênero. O último, “Missão Babilônia”, exibido recentemente em Araraquara, foi renegado publicamente pelo diretor, deixado à margem de seu processo de montagem. Ele teria dito em um site francês que, da forma como foi montada, a versão final do filme "não passa de pura violência e estupidez" e não tem nada a ver com o que ele havia planejado originalmente. "Mais parece um episódio ruim de 24 Horas", comparou.
Se o próprio diretor é quem diz...
 

P.S. Ainda fico devendo escrever sobre atores-diretores brasileiros

 

 

 

POSTAGENS RELACIONADAS: "Talentosos sempre:`à frente e por trás das câmeras"; "Se ele dirige, eu também posso"

Talentosos sempre (à frente e por trás das cameras)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Hoje atendo sugestão do meu querido Márcio, de escrever sobre outros atores que, sem abandonar suas carreiras à frente das câmeras, incursionam –e muito bem- por trás delas, na direção de longas metragens.

 

Começo falando dos muito bem lembrados por ele, em comentário para o último post, Clint Eastwood (ator de faroestes de belos faroestes e policiais) e Sean Penn (memorável em "Os Últimos Passos de um Homem" e "21 gramas", entre muitos outros).
Do primeiro, nunca assisti a um filme sequer que não fosse, no mínimo, excelente, desde “Os Imperdoáveis” .
 
Torci como louca por “Os Imperdoáveis” na cerimônia do Oscar de 93, e fui recompensada. Este faroeste sensível, sobre um ex-pistoleiro redimido que é instigado a voltar a pegar em armas para vingar prostitutas marcadas por fascínoras, levou quatro estatuetas: Melhor Filme, Diretor (ebaaa!), Ator coadjuvante (Gene Hackman, que teve de ser convencido por Eastwwod a aceitar o papel do xerife) e Melhor montagem. O filme é tão bom que mesmo quem não curte o gênero vai se emocionar.
 
Sobre Meninos e Lobos” levou os Oscar de Melhores Ator e Coadjuvante para, coincidentemente, dois atores que também se saem muito bem atrás das câmeras: respectivamente Sean Penn e Tim Robbins (falo sobre ele na próxima postagem).
 
É de arrepiar a cena em que Sean Penn vai confirmar se o corpo encontrado em um parque é o de sua filha: "IS THAT MY DAUGHTER IN THERE?" (é a minha filha lá?), indaga aos berros de puro desespero! Ninguém mais fala na cena... não há música incidental "avisando" que é hora de se emocionar (recurso tão caro a Hollywood). Apenas e simplesmente a atuação de Penn nos comove e convence do desespero de um pai. Quase procurei pelo controle remoto para voltar a cena antes de me lembrar que estava na cadeira de um cinema (confira abaixo).
 
  
 
Denso, "Sobre Meninos e Lobos" entrelaça os dramas particulares de três amigos que cresceram no mesmo bairro, mas foram separados pelos rumos que suas vidas tomaram na idade adulta: o policial interpretado por Kevin Bacon (normalmente bom ator, desaparece diante das atuações avassaladoras dos outros dois) tenta entender o abandono da mulher enquanto investiga o assassinato da filha de Penn, gângster que, por sua vez, conduz uma investigação paralela sobre o caso, não poupando a própria vizinhança; e o deslocado personagem de Tim Robbins arrasta pela sua deslocada vida adulta o trauma de um abuso sexual sofrido em criança. A busca pelos assassinos vai entrelaçar e abalar a vida dos três para sempre.
 
Para não me estender muito, falo sobre apenas mais um título de Eastwood que considero imperdível: “Menina de Ouro”, que também levou o Oscar de Melhor Filme, deu a Eastwwod seu segundo de Melhor Diretor, a Hillary Swank a segunda estatueta de Melhor Atriz (merecido!) e a Morgan Freeman sua primeira de Melhor Coadjuvante (muito bem!) - já deu para perceber que um dos traços do cinema de Eastwood é cercar-se de bons atores e ainda tirar o melhor deles.
 
Muitos pensam que este drama trata apenas de contar a triste história de uma boxeadora que saiu de baixo para ser campeã em sua categoria. Olhando mais de perto, porém, descobrimos que o filme também trata de livre arbítrio e da coragem que devemos ter para arcar com o custo alto de algumas escolhas. Prestem atenção na que o personagem do próprio Eastwood terá que fazer... E a forma subliminar com que ele apresenta este dilema não subestima sequer nossa inteligência ou nossa sensibilidade. Simplesmente avassalador!
 
Sean Penn
 
Curiosamente, meus sites de cinema preferidos não registram aquele que foi, realmente, o primeiro filme dirigido por Sean Penn: “Irmãos de Sangue” (1991), com Viggo Mortensen (o Aragorn, de "O Senhor dos Anéis) no papel de um dos irmãos do título. Com roteiro do próprio Penn, inspirado na música “Highway Patrolman”, de Bruce Springsteen, o filme mostra a relação conturbada, mas apaixonada de dois irmãos completamente diferentes entre si – um delegado pacato de uma cidade americana, o outro, violento, mas tentando lutar contra sua índole para tentar se “ajustar”. A trilha sonora, que inclui clássicos de Janis Joplin, é um ponto alto do filme.
 
Dos outros quatro filmes creditados a ele, só assisti – e gostei medianamente- “A Promessa”, em que Jack Nicholson tenta encontrar um assassino de crianças; e ao último, “Na Natureza Selvagem”, inspirado na história real de Christopher McClandless, que se isola em uma reserva selvagem para viver primitivamente só do que lhe oferece a natureza. Nele, mais uma vez Penn mostra sua grande preocupação –e bom gosto- com a trilha sonora, assinada pelo líder da banda Pearl Jam, Eddie Veder (recomendo o CD).
 
Nas próximas postagens falo do americano Tim Robbins, do francês Mathieu Kassovitz e dos brasileiros Carla Camuratti e Selton Mello (aceito outras sugestões).

Até...

 

POSTAGENS RELACIONADAS: "Mais atores-diretores"; "Se ele dirige, eu também posso"