Há alguns dias, um amigo me enviou matéria sobre mais uma pesquisa comprobatória dos malefícios que certos hábitos acarretam à nossa qualidade de vida. Desta vez não era nada relacionado a consumo orgânico, como cigarro, bebida, gorduras trans ou drogas, mas a consumo intelectual. Uma equipe de uma universidade escocesa comprovou que assistir a comédias românticas "made in Hollywood" podem atrapalhar os relacionamentos amorosos por elevarem muito alto as expectativas dos espectadores quanto a seus relacionamentos na vida real.
Segundo os psicólogos que participaram da pesquisa, os argumentos muito pouco plausíveis, os finais felizes improváveis e a simplificação excessiva dos processos de iniciar e conduzir um relacionamento propagados nesses filmes dão a impressão de que envolver-se é algo que se consegue sem nenhum esforço por parte do casal. Mais: fazem o espectador acreditar que as relações sexuais devem ser sempre perfeitas, sem necessidade de conversa com o parceiro, e que a entrega amorosa e a confiança acontecem desde o momento em que os parceiros se conhecem, quando, na verdade, essas qualidades normalmente levam anos para se desenvolver.
Apesar de fã confessa dos chamados “filmes de mulherzinha” (os mais originais e inteligentes, por favor, que não seguem as formulinhas fixas e muito manjadas de Hollywood), sou forçada a concordar com as características de que as comédias românticas são acusadas nas conclusões da tal pesquisa. Até confesso que o gênero tenha tido alguma influência sobre certos tombos de alturas consideráveis onde coloquei minhas expectativas românticas lá entre minha adolescência e início da fase adulta.
Mas, alto lá! Eu era jovem... e é normal que, na falta de experiências empíricas, adotemos a teoria mais à mão como modelo para muitas de nossas ações ou expectativas.
A cada experiência-tombo, porém, fui aprendendo a levantar mais alerta e a selecionar, ainda que em um nível inconsciente, o que dentro daquele modelo “romântico” funcionava no mundo real. Sem que eu tenha me dado conta de quando exatamente esse processo se concluiu, em dado momento eu já tinha com os tais “filmes de mulherzinha” a relação certa: de diversão e saudável evasão (e olhe que nas produções mais inteligentes dá até para a gente refletir um pouco...rs).
Muitos dos que estiverem lendo chamarão a este processo de “perda das ilusões”. Eu chamo de “crescer”, pois não considero que perdi nada. Meu romantismo continua intacto. Sei, por experiência própria, que os relacionamentos não se desenrolam como nos filmes, mas acredito no romantismo que eles inspiram porque jamais renunciei a ele em minha vida real. Apenas minhas expectativas adequaram-se ao tempo e à altura certos (sim, é possível!).
Todos passamos pelo mesmo processo quando confrontamos a teoria que aprendemos nos contos de fadas da infância ou nos textos dos livros didáticos com a prática na vida adulta. Afinal, não abandonamos as crenças e convicções adquiridos durante nossa formação acadêmica só porque a vida fora da escola não acontece exatamente como nos livros de histórias. Deixar de lê-los porque não refletem exatamente a mesma realidade em que vivemos seria meio como “jogar fora o bebê junto com a água do banho”.
Fosse assim, teríamos que proibir adolescentes de assistir a "Uma Linda Mulher", sob pena de saírem acreditando que, prostituindo-se, encontrariam por aí um príncipe encantado do naipe de Richard Gere (cá entre nós, a-doooo-ro "Uma Linda Mulher", perfeito "filme de Luluzinha", mas nunca sonhei ser a prostituta Vivian).
Pessoalmente, eu prefiro entregar-me a um bom livro ou filme, fantasiosos ou não, e correr o grande risco de, no processo, refletir sobre alguma alegoria que encontre correspondência em minha vida real. Mesmo que eu não aprenda nada com isso, no mínimo, voltarei para o mundo real de muito melhor humor (mas sempre aprendemos alguma coisa, não é mesmo?).
E vamos combinar que, após um certo número de experiências de vida, não são os filmes ou livros que lemos que definem a altura de quaisquer de nossas expectativas, bem como não é o cigarro, a bebida ou a droga que se impõem ao uso pelo homem, independentemente de sua vontade. É preciso que o homem ESCOLHA dar o primeiro gole ou primeira tragada. Da mesma forma, cada um de nós também define o modelo que escolheremos para nossas expectativas em qualquer seara de nossa vida.
Então, qualquer tentativa de malhar um produto artístico por considerar sua influência “perigosa” me cheira mal. Cheira à tão temida censura de que fomos vítimas em regimes ditatoriais e sugere que as pessoas não são capazes de fazer suas próprias escolhas.
Pessoalmente, então, escolho considerar esta pesquisa como um retrato instantâneo de um quadro comportamental e faço votos para que não seja usada como prova condenatória de um gênero artístico. Afinal, quem tem que mudar a forma de assimilar as comédias românticas são as pessoas refletidas neste instantâneo.