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Série Harry Potter: boa literatura e cinema à altura

sexta-feira, 27 de março de 2009

Confessar-me fã da série “Harry Potter...” (os livros, mais do que os filmes) sempre me rende comentários e olhares preconceituosos, principalmente por parte de coleguinhas de profissão. Posso conviver com opiniões divergentes –é inevitável na carreira que escolhi, tão linkada à livre expressão-, mas me incomoda quando esses olhares e comentários partem de pessoas que sequer deram-se ao trabalho de conhecer, ainda que superficialmente, o objeto de sua crítica. Tenho uma colega, por exemplo, que já admitiu nunca ter lido sequer uma orelha de qualquer livro da série, mas a despreza pelo simples fato de ser um fenômeno de vendas - como se fazer sucesso fosse sempre garantia de baixa qualidade (se todos pensassem assim, Machado de Assis seria considerado um pária). Preconceito puro!

 

Pois bem. Como muitos outros adultos têm vergonha de admitir, adoro a série Harry Potter. Apesar de pensada para o público infanto-juvenil, é boa literatura para qualquer idade, bem escrita e sua história arquitetada com inteligência, criatividade e nenhuma subestimação à capacidade do leitor de pescar mensagens subliminares. Há metáforas remetendo aos dilemas que todo adolescente enfrentará na vida real e propostas de questões filosóficas (como a que Harry levanta sobre sua própria natureza, quando percebe que tem muito do vilão dentro da própria personalidade e começa a se perguntar se pode escolher entre o bem e o mal ou se há um determinismo regendo nossa tendência a um ou outro).

 

Os livros desenvolvem melhor essas questões, e os filmes, apesar de resumirem as histórias, mantêm –com exceção do quarto- a essência das histórias e suas mensagens.

 
Tudo bem que este blog trata-se de cinema e não de literatura, mas inevitável comentar a série de filmes “Harry Potter...” sem relacioná-la à sua matriz literária. Por isso os comentários sobre os cinco filmes já lançados, a seguir, saem cheios de referências aos livros.
 
Os primeiro e segundo filmes são praticamente fiéis aos livros, brindando os fãs com imagens fantásticas para o mundo mágico que até então só conheciam na imaginação. Não decepcionaram.
 
O terceiro filme, dirigido pelo mexicano Alfonso Arau, é, em minha opinião, o melhor da série até agora. Tem ótimo ritmo, fotografia fantástica e bom timing para o humor.
 
Já o quarto considero o que pior fez justiça a um livro da série. Acho o quarto volume o mais eletrizante, já que é aquele em que Harry Potter é escalado para o torneio tribuxo, ao final do qual ocorrerá uma morte e a volta à vida do grande vilão Voldemort. No livro, as descrições de cada prova do tribuxo, que colocam em risco a vida de Harry e seus amigos, e as cenas finais do torneio são eletrizantes, de tirar o fôlego. Mas no filme estas sequencias resultam num festival de efeitos especiais sem a mesma emoção. Até o desempenho do ator que vive Harry deixa a desejar. Faltou a mão do diretor ali.
 
O quinto filme volta a fazer justiça ao livro e desta vez os resumos necessários a que a história caiba em 2 horas de filme não comprometem, pois o essencial está lá. É a fase da história em que a Ordem da Fênix, que combateu o vilão Voldemort antes, tem que ser reconvocada para proteger o mundo bruxo, mas na clandestinidade, já que as autoridades oficiais recusam-se a acreditar na palavra de Harry, de que o vilão voltou mesmo à vida. E é neste filme também que Harry enfrenta seus auto-questionamentos e encontra os motivos certos para escolher em que lado de sua personalidade atuar.
 
Espero que o sexto filme mantenha o espírito do livro “Harry Potter e o enigma do príncipe”, o que acredito que acontecerá, já que o diretor é o mesmo e o trailer promete!
 

Já sabemos, inclusive, que o diretor Peter Yates também assinará os filmes da série até o final e que o sétimo e último livro, “Harry Potter e as relíquias da morte” renderá dois filmes -“Harry Potter e as relíquias da morte” 1 e 2 - para que a história não precise ser muito retalhada. O que acho muito bom.

 

 

POSTAGENS RELACIONADAS: "Crepúsculo: curta sem preconceito (de for capaz)"; "Harry Potter e o Enigma do Príncipe"; "O cinema que adora Jane Austen"

Warner libera trailer de 'Harry Potter e o enigma do príncipe"

quarta-feira, 18 de março de 2009

 

Passada rápida só para postar links para o primeiro trailer de "Harry Potter e o enigma do príncipe" -sexto filme da série de sete- liberado pela Warner Bros.

Antes que os puristas torçam o nariz para a preferência desta cinéfila por uma produção tão comercial, lembro que preconceito não combina com arte... trocando em miúdos, nem todo sucesso retumbante de bilheteria precisa ser acéfalo ou medíocre. "Batman - O Cavaleiro das Trevas" -sucesso não só de público como de crítica- está aí para provar.

Sou fã da série de livros "Harry Potter...", e por extensão, da cinematográfica, que -exceção feita ao quarto filme, que considero o pior feito sobre um dos melhores livros da série- tem conseguido ser fiel à matriz literária, ainda que as limitações de linguagem do cinema obrigue certos resumos inevitáveis da obra escrita. Nada grave, porém...

Prometo escrever mais detidamente sobre a série de filmes na próxima postagem, que pretendo produzir no final de semana. Enquanto isso, divirtam-se acessando os links dos trailers abaixo (escolha a definição conforme seu tipo de conexão à internet e seu player de vídeos):

 

Para assistir com Windos Media Player,:

Trailer alta definição para banda larga;

Trailer média definição;

Trailer baixa definição

 

Para assistir com Quick Time:

Trailer alta definição para banda larga;

Trailer média definição;

Trailer baixa definição

‘Gran Torino’: um Eastwood menos profundo, mas legítimo

sábado, 14 de março de 2009

Walt Kowalsky após expulsar a gangue coreana de seu jardim: truculência
 
Já falei antes sobre o cinema de Clint Eastwood, em uma postagem sobre atores que se saem muito bem quando decidem também dirigir filmes. Nesta modalidade ele é um de meus preferidos, mas “Gran Torino”, seu mais recente trabalho em dupla função –atua e dirige- não ficará entre os mais memoráveis de sua filmografia em meu ranking pessoal.
 
Não é, absolutamente, um filme ruim. Apenas não tem a mesma profundidade de “Sobre Meninos e Lobos” e “Menina de Ouro”, mas, como um legítimo “Eastwood”, ainda é uma história bem contada.
 
E esta história começa no velório da esposa do veterano de guerra Walt Kowalski, pai e avô rabugento de dois filhos adultos e alguns netos para os quais só tem olhares de desaprovação e resmungos. “Simpatia” que ele também não poupa aos vizinhos, imigrantes chineses sobre os quais nunca teve o menor interesse.
 
Este estado de coisas começa a mudar quando uma gangue começa a pressionar o adolescente Tao, que mora na casa ao lado, a roubar o automóvel Gran Torino 1972 que Walt guarda na garagem. Ele impede o roubo de espingarda em punho, mesma arma que usará, alguns dias depois, para afugentar de seu jardim a gangue que veio acertar as contas com o jovem vizinho. A partir de então, Walt não consegue mais se desvencilhar dos arroubos de gratidão da família, que enche sua varanda de oferendas e ainda obriga o garoto a prestar-lhe serviços durante uma semana para desculpar-se da tentativa de roubo.
 
Aos poucos, a rabujice de Walt vai se revelando o que realmente é: uma fachada que impede tentativas de aproximação. Por trás desta máscara, ele tenta esconder um homem ainda em conflito com suas memórias de guerra e incapaz de estabelecer qualquer tipo de comunicação com os próprios filhos.
 
Mas esta armadura começa a apresentar fissuras por todos os lados, feitas pelas tentativas de aproximação do jovem padre da comunidade, que não desiste de cumprir a promessa que fez à falecida esposa de Walt, de ouvi-lo em confissão; pelo jovem Tao, por quem o veterano passa a ter instintos paternais; e pela irmã dele, com quem desenvolve uma amizade natural.
 
Mas a guerra não acabou para Walt e ela volta a bater em sua porta quando a família que o adotou passa a ser assombrada novamente pela gangue do bairro. Como no Vietnam, ele não fugirá, mas suas armas, desta vez, serão outras.
 
Em forma perto de completar 80 anos, Eastwood esbanja carisma mesmo na pele de um idoso rabujento. As tiradas trogloditas de seu personagem garantem bons momentos de humor graças a isso. Só assim para “desculparmos” um certo ranço do ideário republicano e machista que o discurso do personagem deixa entrever em certos diálogos.
 

Sim, Eastwood é um ÓTIMO cineasta, profundo como poucos, mas também conserva muito dos personagens durões, justiceiros e movidos a testosterona que interpretou ao longo de toda a sua carreira. Às vezes até um pouco demais.

 

Veja trailer:

 

 

 

POSTAGEM RELACIONADA: "Talentosos sempre:`à frente e por trás das câmeras"

'O Casamento de Rachel': como olhar pelo buraco da fechadura

sexta-feira, 6 de março de 2009

Anne Hathaway (esq.) em 'O Casamento de Rachel', de Jonathan Demme

 

 

"Todas as famílias felizes se parecem, mas as famílias infelizes o são cada uma a seu modo “, escreveu Leon Tolstói no clássico “Anna Karenina”.

 

O cinema explora constantemente esta premissa em filmes que adentram a intimidade de famílias exemplares na aparência, mas desfuncionais nos bastidores. Esta modalidade de enredo acaba de ganhar um representante original em “O Casamento de Rachel”, que rendeu a primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz na carreira de Anne Hathaway (“O Diário da Princesa” e “O Diabo Veste Prada”).
 
Ela faz Kimmy, a caçula de duas irmãs que recebe autorização da clínica de reabilitação onde trata –não pela primeira vez- sua dependência química e de álcool para comparecer ao casamento da mais velha, Rachel. A condição é que se submeta a testes de urina antes e depois do evento e freqüente reuniões diárias do Narcóticos Anônimos pelo tempo que precisar se ausentar.
 
Logo que é recebida, pelo pai, a madrasta e a irmã noiva, na casa toda preparada para um casamento com tema indiano, percebe-se que o afeto a unir aquela família é genuíno. Mas isso não impede que todos ainda tenham que lidar com as feridas abertas por episódios traumáticos causados pelos vícios de Kimmy. Um pedido de desculpas público em pleno jantar de ensaio do casamento faz emergir em Rachel antigos ressentimentos com os quais todos evitavam lidar, e em Kimmy uma culpa antiga pela qual ela recusa-se a se perdoar.
 
A câmera de Jonathan Demme (de “O Silêncio dos Inocentes”) acompanha as ações e reações de cada personagem como se o seguisse muito de perto, como em um documentário ou mesmo em um filme caseiro de evento familiar. Isso faz com que tenhamos a impressão de estarmos olhando o que não deveríamos pelo buraco da fechadura.
 
Talvez a intenção de Demme tenha sido mesmo fazer com que no sentíssemos intrusos, para intensificar a idéia de que estamos assistindo a cenas de profunda intimidade e da conta apenas daquela família.
 
Ao final, nem todos os ressentimentos são resolvidos e nem todas as culpas perdoadas, mas a mensagem que fica é a de que, mais forte que os dissabores e decepções, o amor tem o poder de manter unidos entes que nem sempre conseguem conviver juntos sem se machucarem. Não é exatamente um final feliz, mas rescinde a esperança, o que não deixa de ser, ao mesmo tempo, realista e auspicioso.
 

Confira o trailer do filme:

 

 

 

POSTAGEM RELACIONADA: "Becoming Jane"