Confessar-me fã da série “Harry Potter...” (os livros, mais do que os filmes) sempre me rende comentários e olhares preconceituosos, principalmente por parte de coleguinhas de profissão. Posso conviver com opiniões divergentes –é inevitável na carreira que escolhi, tão linkada à livre expressão-, mas me incomoda quando esses olhares e comentários partem de pessoas que sequer deram-se ao trabalho de conhecer, ainda que superficialmente, o objeto de sua crítica. Tenho uma colega, por exemplo, que já admitiu nunca ter lido sequer uma orelha de qualquer livro da série, mas a despreza pelo simples fato de ser um fenômeno de vendas - como se fazer sucesso fosse sempre garantia de baixa qualidade (se todos pensassem assim, Machado de Assis seria considerado um pária). Preconceito puro!
Pois bem. Como muitos outros adultos têm vergonha de admitir, adoro a série Harry Potter. Apesar de pensada para o público infanto-juvenil, é boa literatura para qualquer idade, bem escrita e sua história arquitetada com inteligência, criatividade e nenhuma subestimação à capacidade do leitor de pescar mensagens subliminares. Há metáforas remetendo aos dilemas que todo adolescente enfrentará na vida real e propostas de questões filosóficas (como a que Harry levanta sobre sua própria natureza, quando percebe que tem muito do vilão dentro da própria personalidade e começa a se perguntar se pode escolher entre o bem e o mal ou se há um determinismo regendo nossa tendência a um ou outro).
Os livros desenvolvem melhor essas questões, e os filmes, apesar de resumirem as histórias, mantêm –com exceção do quarto- a essência das histórias e suas mensagens.
Tudo bem que este blog trata-se de cinema e não de literatura, mas inevitável comentar a série de filmes “Harry Potter...” sem relacioná-la à sua matriz literária. Por isso os comentários sobre os cinco filmes já lançados, a seguir, saem cheios de referências aos livros.
Os primeiro e segundo filmes são praticamente fiéis aos livros, brindando os fãs com imagens fantásticas para o mundo mágico que até então só conheciam na imaginação. Não decepcionaram.
O terceiro filme, dirigido pelo mexicano Alfonso Arau, é, em minha opinião, o melhor da série até agora. Tem ótimo ritmo, fotografia fantástica e bom timing para o humor.
Já o quarto considero o que pior fez justiça a um livro da série. Acho o quarto volume o mais eletrizante, já que é aquele em que Harry Potter é escalado para o torneio tribuxo, ao final do qual ocorrerá uma morte e a volta à vida do grande vilão Voldemort. No livro, as descrições de cada prova do tribuxo, que colocam em risco a vida de Harry e seus amigos, e as cenas finais do torneio são eletrizantes, de tirar o fôlego. Mas no filme estas sequencias resultam num festival de efeitos especiais sem a mesma emoção. Até o desempenho do ator que vive Harry deixa a desejar. Faltou a mão do diretor ali.
O quinto filme volta a fazer justiça ao livro e desta vez os resumos necessários a que a história caiba em 2 horas de filme não comprometem, pois o essencial está lá. É a fase da história em que a Ordem da Fênix, que combateu o vilão Voldemort antes, tem que ser reconvocada para proteger o mundo bruxo, mas na clandestinidade, já que as autoridades oficiais recusam-se a acreditar na palavra de Harry, de que o vilão voltou mesmo à vida. E é neste filme também que Harry enfrenta seus auto-questionamentos e encontra os motivos certos para escolher em que lado de sua personalidade atuar.
Espero que o sexto filme mantenha o espírito do livro “Harry Potter e o enigma do príncipe”, o que acredito que acontecerá, já que o diretor é o mesmo e o trailer promete!
Já sabemos, inclusive, que o diretor Peter Yates também assinará os filmes da série até o final e que o sétimo e último livro, “Harry Potter e as relíquias da morte” renderá dois filmes -“Harry Potter e as relíquias da morte” 1 e 2 - para que a história não precise ser muito retalhada. O que acho muito bom.
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