Desculpem se esta postagem eventualmente não se restringir apenas ao assunto cinema, pois hoje decidi falar de um tempo não muito distante em termos de gerações, mas anos-luz atrás em termos de tecnologia midiática, que deveria ser mais relembrado em filmes. Um tempo em que para ouvirmos música nova dependíamos exclusivamente das rádios e, depois, da chegada do vinil às lojas. Um tempo em que líamos muito mais sobre filmes do que assistíamos, porque só os grandes centros recebiam variedades de títulos e aos cinemas de cidades do interior como aquela em que cresci só chegavam (como hoje, aliás) os norte-americanos com desempenho bem-sucedido de bilheteria.
Ainda não havia videocassetes. Quando eu lia sobre determinado filme nos cadernos de Cultura dos grandes jornais, tinha pouca ou nenhuma esperança de vê-lo um dia se não fosse hollywoodiano. Se fosse, sabia que teria de esperar de meses a anos para, com sorte, ver em um cinema de minha cidade ou quando fosse liberado para a TV em versão dublada e com cortes, todo interrompido por comerciais (também não existia o advento da TV paga como a conhecemos hoje).
Para a geração que cresceu já sabendo baixar filmes e músicas com apenas um toque em sites da internet, pode parecer que estou falando de séculos atrás, mas foi há pouco mais de 20 anos.
Ouvíamos LPs de vinil em aparelhos 3 em 1 (toca-discos, rádio e toca-fitas) enormes, com caixas de som passivas também enormes. Enquanto o vinil de alguma música que conhecíamos na rádio ainda não chegava às lojas, ficávamos caçando-a pelo dial nas estações FM. Ou deixávamos numa estação só enquanto fazíamos outra coisa, mas com os botões REC, PLAY e PAUSE do toca-fitas apertados, prontos para iniciarem uma gravação do rádio. Se uma das músicas esperadas tocasse, saíamos em disparada, derrubando móveis e quem estivesse pelo caminho, para soltar o PAUSE a tempo. Quando tínhamos sorte, conseguíamos gravar a música quase na introdução sem um locutor chato falando até entrar o vocalista (mas só com MUUUUITA sorte).
Quando chegavam os vinis, nem sempre tínhamos dinheiro para comprar, mas alguém conhecido sempre tinha e emprestava para gravarmos em fitas cassetes virgens. E era uma operação demorada esta, de deixar o vinil tocar inteiro enquanto era gravada a fita. E se queríamos mudar a ordem das músicas na fita, então! Era apertar PAUSE COM REC e PLAY, gravar, apertar PAUSE de novo, trocar a agulha do toca-discos de faixa (ou trocar o LP), desapertar PAUSE antes da faixa começar... às vezes a música começava antes e tínhamos que voltar a fita ao ponto, ouvindo-a de novo, e acertar o tempo de apertar o STOP

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Lembro que passava dias inteiros nessas operações, principalmente quando conseguia emprestada uma coleção inteira de algum artista ou grupo que adorava. Foi assim que ouvi a coleção inteira do Queen e dos Beatles, todos os discos de Caetano e Chico... em fitas cassetes, gravadas em casa de vinis emprestados de quem tinha dinheiro para comprar a coleção toda de seus ídolos (nossa, como tínhamos tempo?!?!?!?!).
Ahhhh, o videocassete

O mais difícil desta época, para mim, era ficar esperando os filmes sobre os quais eu lia em jornais ou revistas. Ahhhhh, mas quando surgiu o videocassete!!! Que alegria... a oportunidade de assistir filmes de outros países ou não ter que esperar uma reprise de TV para rever algum título favorito!
Tudo bem, demorou um pouco para eu conseguir comprar o meu primeiro aparelho de videocassete em seis prestações de parcelas reajustáveis numa economia super-inflacionada, mas lembro-me de fazer conta na locadora e passar finais de semanas inteiros assistindo o máximo de filmes que meu mirrado salário permitia alugar.
Foi quando comecei a assistir os filmes sobre os quais só havia lido minha vida inteira... quantas descobertas! E que valor dávamos para aqueles “tesouros”.
Hoje é tudo muito fácil (não pensem que estou reclamando). Baixa-se um filme inteiro recém lançado nos cinemas em menos de uma hora pelo PC e já não existem músicas novas às quais não se possa ter acesso gratuitamente pela internet.
Não me entendam mal. ADOOORO a tecnologia e a facilidade de acesso que ela me traz a novos sons e imagens (será que a geração atual tem consciência da sorte que tem?), mas sinto falta da interação "olho a olho" que a antiga não eliminava. Lembro-me que, para apreciadores de música e cinema como eu, era um prazer se encontrar para trocar as últimas informações sobre nossos assuntos preferidos, trocar vinis ou revistas, atualizar-se sempre, tecer críticas e comentários, decorar nomes de diretores, atores, cantores e compositores. Líamos muito, mas conversávamos muito mais. Interagíamos muito mais...
Hoje esta troca ocorre mais virtualmente, com cada um em seu micro (aqui estou eu dividindo minhas opiniões sobre cinema através de um blog, que nem sei por quem ou quantas pessoas é acessado). Posso dizer: “não é a mesma coisa”. É um prazer registrar e compartilhar comentários e opiniões sobre cinema neste blog, mas não é suficiente. Quero a interação (ESCREVAM COMENTÁRIOS POR FAVOOOOOR...), o trocar críticas e comentários, informações e emoções que tal música ou filme despertam ao vivo, olho a olho também, não só registrar unilateralmente meu ponto de vista.
A arte não pode isolar. Deve ser não só compartilhada, mas também debatida, comentada, pensada, enfim... deve unir. Não percam isso!