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‘Feios irresistíveis’: Richard Armitage

quinta-feira, 30 de abril de 2009

 

Se você considerar separadamente cada traço do inglês Richard Armitage - os lábios muito finos para o tamanho da arcada (levemente recuada em relação ao queixo meio pontudo), o nariz grande e mal desenhado e os olhos fundos - concordará que ele também não se encaixa no padrão masculino de beleza do cinema.

 

Mas assista-o utilizando este conjunto na interpretação de uma cena de grande emoção (como a que postei ao final deste texto, por exemplo). O olhos azuis claros adquirem uma intensidade de agulha, os músculos da face se contraem à mercê da expressão e a boca articula com ferocidade e determinação. E a voz...
 
Ahhhh, a voz de Richard Armitage...! Como no caso de Matthew MacFadyen, é seu grande trunfo, com a diferença de que Armitage é muuuuito melhor ator. A ira de seus personagens dá medo, bem como sua tristeza desperta vontade de niná-lo ou sua expressão amorosa faz derreter. Por este motivo não entendo o porquê de sua carreira continuar restrita à TV inglesa, onde até recentemente ele arrancava suspiros no papel de Guy of Gisborne, do seriado “Robin Hood”.
 
No “The Internet Movie Database” - o banco de dados mais completo sobre o mundo do entretenimento na rede – consta que ele emenda um trabalho em outro na TV desde 1999, sempre em episódios de minisséries ou seriados. Não encontrei nenhum longa metragem em sua cinematografia, mas o registro de experiências anteriores em teatro e musicais explicam a voz forte e sempre bem colocada, o talento interpretativo, a boa linguagem corporal e a grande presença em cena.
 
Eu o conheci na pele de John Thornton, protagonista de “Norte e Sul”, adaptação em quatro capítulos feita pela BBC de romance homônimo da inglesa Elisabeth Gaskell, cuja obra se assemelha em muitos pontos à de outra inglesa muito filmada pelo cinema ocidental: Jane Austen.
 
A série ainda não chegou ao Brasil, nem via DVD nem em TV. Assisti a um vídeo importado dela com legenda de portugal e A-DO-REI! Principalmente, claro, devido à atuação de Armitage.
 
Entendi porque os fãs de Jane Austen estavam defendendo a sua escolha para o papel de Mr. Knightley na adaptação de “Emma” que a BBC roda ainda este ano (volta-e-meia a emissora inglesa programa uma nova adaptação de uma obra da escritora). Mas parece que o escolhido será mesmo Johnny Lee Miller, o protagonista da série “Eli Stone”, da Sony, que já viveu antes um personagem de Austen: foi Edmund na versão para o cinema de “Mansfield Park” (que no Brasil passou com o título de “Palácio das Ilusões”). A Emma de 2009 será Romola Garai, a boazinha Amélia de Feira de Vaidades.
 
Para ratificar tudo o que digo, confiram abaixo vídeo de trecho de “Norte e Sul”, que editei especialmente para esta postagem (vocês vão entender, inclusive, porque a obra de Elizabeth Gaskell lembra tanto a de Austen):

 

 

 

 

Ahhhh... esses feios irresistíveis!!!

terça-feira, 28 de abril de 2009

 

Os três são ingleses e suas aparências não seguem exatamente o modelo de beldade masculina estabelecido pela mídia em geral. Mas uma certa postura confiante em cena, as vozes másculas e sempre bem postadas e um charme que a gente nunca sabe dizer de onde vem compensam com sobras as imperfeições dos traços.

 

Estou falando de Matthew MacFadyen, James McAvoy e Richard Armitage, que chamo aqui de “feios” para contentar o gosto médio e (mal) acostumado ao padrão hollywoodiano de beleza. Mas, para mim, o “conjunto da obra” desses ingleses pouco ou recém (no caso de McAvoy) descobertos pelo cinemão os torna belíssimos exemplares de seu sexo.
 
Decidi falar sobre as obras que me chamaram a atenção sobre estes três “colírios” para espairecer após a última postagem densa sobre o filme “Dúvida”. Afinal, ninguém é de ferro, né?
 
Começo falando de Matthew MacFadyen, que apareceu mais para a platéia ocidental como o Mr. Darcy da última adaptação de “Orgulho e Preconceito” para o cinema, mas ele já acumula uma longa carreira na TV inglesa. No cinema, aparece bissextamente, sempre em produções mais alternativas, como “Um Refúgio no Passado” ou “Crime no Funeral”, e raramente como protagonista. Recentemente também fez uma ponta em “Frost/Nixon”, que perdeu o Oscar de Melhor Filme deste ano para “Quem quer ser um milionário”.
 
Tudo bem, ele não é assim um Lawrence Olivier da interpretação, mas, bem dirigido, tem seus momentos. Repare, em “Orgulho e Preconceito”, a cena em que ele tenta se declarar e é rejeitado por Keyra Knightley, na pele de Elizabeth Bennet (clique aqui para ver a cena no youtube). Ele passa do sofrimento à surpresa e desta para a raiva contida em segundos e com dosada sutileza, com a câmera pegando em close suas mudanças de expressões. Sua voz, forte e empostada, é seu grande trunfo.
 
Pena que neste filme ele só tenha ensaiado um sorriso uma única vez (quando apresenta a irmã à sua pretendida Elizabeth). Seu rosto se transforma numa máscara linda e angelical quando sorri.
 
Para não me estender muito, deixo para escrever sobre James McAvoy e Richard Armitage nas próximas postagens, que prometo para muito breve. Até lá, fiquem com o clipe com cenas de Macfadyen em “Orgulho e Preconceito" que editei especialmente para o blog:
 
 

POSTAGENS RELACIONADAS: Alexander Skarsgarde: um colírio de 1,93m de altura", "Feios irresistíveis: Richard Armitage"; "Feios Irresistíveis: James McAvoy", "Atendendo a pedido, mas sobre Richard Armitage", "Por que choram os homens?"

Todas as certezas são frágeis

sexta-feira, 24 de abril de 2009

 

“Sempre tive medo de pessoas que têm certeza de tudo”. Esta frase, que li há muitos anos, não sei em qual livro ou filme, me marcou para sempre. Hoje sei porque: as pessoas que mais temi na vida exerceram algum tipo de autoridade opressora sobre mim. Não o tipo de autoridade moral que nasce do respeito conquistado ou do reconhecimento - como a de que gozam os (bons) pais, por exemplo. Mas aquela de pessoas que se fazem obedecer pelo medo, que parecem não ter dúvidas sobre nada, que não admitem questionamentos e acham que não devem explicações a ninguém. Acreditam estar invariavelmente certas sobre tudo, sempre.

 
Este é o tipo de autoridade exercida pela personagem que deu o Oscar de Melhor Atriz deste ano a Meryl Streep no filme “Dúvida”, com ótimos roteiro e direção de John Patrick Shanley (vou procurar mais trabalhos desse cara para ver).
 
A história é muito simples, mas faz a gente pensar. Meryl interpreta (divinamente, como sempre) uma freira assustadora, que dirige com mãos de ferro um colégio religioso. Quando um padre faz um sermão sobre o tema “Dúvida”, ela passa a desconfiar de que há algo errado com ele. É o bastante para que o acredite capaz de molestar o único garoto negro da escola, que, isolado, recebe deste padre apoio e atenção especiais.
 
A suspeita parte de fatos vagos relatados pela freira mais jovem da ordem, também muito bem interpretada por Amy Adams, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante – o filme, aliás, rendeu quatro indicações aos Oscars de atuações: para a vencedora Meryl, para Amy e para Viola Davis (também como coadjuvantes) e Phillip Seymour Hoffman (ator), que faz o padre sob suspeita.
 
A freira passa a perseguir o padre e, no ponto alto da história, trava com ele um duelo fantástico de idéias (e de interpretações). Mesmo sem provas, ela tem certeza de que ele é culpado. Não teme, não vacila, acua-o com suas certezas. Assustadora esta freira que olha nos olhos e diz exatamente o que deve ser feito, que não admite que possa haver outras versões para o que é certo. Você sabe que esta pessoa é capaz de tudo para provar que o seu certo é “O CERTO” e nada vai pará-la.
 
O desfecho do filme reserva destinos surpreendentes a estes dois antagonistas. Como na vida real, nada é o que parece ser. Concluímos que há algo de frágil na autoridade de quem não admite questionamentos. Se as certezas são sua sustentação, o que acontecerá a essas pessoas quando a mínima dúvida começar a corroer este pilar?
 
No caso da freira de Meryl Streep, seus próprios medos e não a suspeita de um crime a municiaram contra aquele padre de idéias progressistas, que a ameaçou com a mudança, inimiga da ordem estabelecida... inimiga, portanto, das certezas pelas quais ela se guiou por toda a vida.
 
Com o tempo, também deixei de temer as pessoas que têm certeza de tudo. Porque, no fundo, todas as certezas são frágeis.
 
Veja trailer do filme:
 

 

‘Ele não está tão a fim de você’: terapia de grupo para Luluzinhas

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Justin Long e Ginnifer Goodwin em cena da comédia romântica: delícia de catarse

 

No último final de semana tive o prazer –cada vez mais raro- de me divertir com uma comédia romântica que não me fez sentir-me uma descerebrada. É tênue a linha que separa as comédias de fórmulas batidas daquelas que conseguem, de uma forma inteligente, reinventá-las (porque é impossível o gênero desvencilhar-se delas ou não seria um gênero), nos fazendo simplesmente curtir a história leve sem aquela "vergonha alheia" das cenas piegas ou dos desfechos forçados.

 

Dei boas risadas com as histórias de “Ele não está tão a fim de você” (veja trailer aqui), que faz piadas da tendência feminina em encontrar desculpas e significados ocultos para a covardia masculina em assumir um fora ou um relacionamento, com toda a franqueza que o sexo oposto merece...
 
Acredito que todas as mulheres no cinema encontraram pelo menos uma situação reproduzida no filme que já tenham vivido. Descobri que pode ser bem catártico permitir-se dar boas gargalhadas ao se ver neste espelho de celulóide que o cinema às vezes propicia. Para mim foi e espero que tenha sido também para minha amiga Karen, que assistiu ao filme na mesma sessão, duas filas acima, cercada por umas cinco colegas. “Terapia de grupo”, brincou ela, dona que é de um humor espirituosíssimo!
     
Eu admito que FUI (observem o tempo do verbo) a personagem de Ginnifer Goodwin, um imã de homens que querem simplesmente “pegar” o máximo de mulheres que puderem, enquanto ela só “fica” com os que elege como potenciais namorados. E quando esses candidatos não ligam de volta... quantas desculpas e hipóteses absurdas ela levanta para não enxergar que, enquanto ficava fantasiando um relacionamento, para o cara era apenas mais um “amasso”.
 
Quem faz Ginnifer acordar para estas evidências é o personagem de Justin Long –uma gracinha, de voz linda e muita expressividade facial, que descobri adolescente em um filme independente chamado “Dreamland” (assistam!).
 
Para a sorte dela, Justin interpreta a encarnação de uma “raríssima” franqueza masculina, por isso passa a ajudá-la a identificar os caras nos quais não vale a pena apostar. E como não dá para renunciar a todas as obviedades das comédias românticas - vá lá, dá para engolir esta -: claaaaaro que vai surgir uma química entre os dois.
 
Só cito o perfil da personagem de Ginnifer porque é aquele com o qual me identifiquei, mas a partir das experiências das amigas dela, outras situações se ramificam em um mosaico das dúvidas que assombram os relacionamentos modernos. Tenho certeza que todas encontram similares na realidade. Mas desconfio que a coisa toda só terá graça para quem estas situações já ficaram no passado...
 

Rir de tudo é muito mais fácil quando a doença não está mais instalada.

Há muito, muito tempo atrás, uma geração distante...

domingo, 12 de abril de 2009

Desculpem se esta postagem eventualmente não se restringir apenas ao assunto cinema, pois hoje decidi falar de um tempo não muito distante em termos de gerações, mas anos-luz atrás em termos de tecnologia midiática, que deveria ser mais relembrado em filmes. Um tempo em que para ouvirmos música nova dependíamos exclusivamente das rádios e, depois, da chegada do vinil às lojas. Um tempo em que líamos muito mais sobre filmes do que assistíamos, porque só os grandes centros recebiam variedades de títulos e aos cinemas de cidades do interior como aquela em que cresci só chegavam (como hoje, aliás) os norte-americanos com desempenho bem-sucedido de bilheteria.

 

Ainda não havia videocassetes. Quando eu lia sobre determinado filme nos cadernos de Cultura dos grandes jornais, tinha pouca ou nenhuma esperança de vê-lo um dia se não fosse hollywoodiano. Se fosse, sabia que teria de esperar de meses a anos para, com sorte, ver em um cinema de minha cidade ou quando fosse liberado para a TV em versão dublada e com cortes, todo interrompido por comerciais (também não existia o advento da TV paga como a conhecemos hoje).
 
Para a geração que cresceu já sabendo baixar filmes e músicas com apenas um toque em sites da internet, pode parecer que estou falando de séculos atrás, mas foi há pouco mais de 20 anos.
 
Ouvíamos LPs de vinil em aparelhos 3 em 1 (toca-discos, rádio e toca-fitas) enormes, com caixas de som passivas também enormes. Enquanto o vinil de alguma música que conhecíamos na rádio ainda não chegava às lojas, ficávamos caçando-a pelo dial nas estações FM. Ou deixávamos numa estação só enquanto fazíamos outra coisa, mas com os botões REC, PLAY e PAUSE do toca-fitas apertados, prontos para iniciarem uma gravação do rádio. Se uma das músicas esperadas tocasse, saíamos em disparada, derrubando móveis e quem estivesse pelo caminho, para soltar o PAUSE a tempo. Quando tínhamos sorte, conseguíamos gravar a música quase na introdução sem um locutor chato falando até entrar o vocalista (mas só com MUUUUITA sorte).
 
Quando chegavam os vinis, nem sempre tínhamos dinheiro para comprar, mas alguém conhecido sempre tinha e emprestava para gravarmos em fitas cassetes virgens. E era uma operação demorada esta, de deixar o vinil tocar inteiro enquanto era gravada a fita. E se queríamos mudar a ordem das músicas na fita, então! Era apertar PAUSE COM REC e PLAY, gravar, apertar PAUSE de novo, trocar a agulha do toca-discos de faixa (ou trocar o LP), desapertar PAUSE antes da faixa começar... às vezes a música começava antes e tínhamos que voltar a fita ao ponto, ouvindo-a de novo, e acertar o tempo de apertar o STOP...
 

 

Lembro que passava dias inteiros nessas operações, principalmente quando conseguia emprestada uma coleção inteira de algum artista ou grupo que adorava. Foi assim que ouvi a coleção inteira do Queen e dos Beatles, todos os discos de Caetano e Chico... em fitas cassetes, gravadas em casa de vinis emprestados de quem tinha dinheiro para comprar a coleção toda de seus ídolos (nossa, como tínhamos tempo?!?!?!?!).
 
Ahhhh, o videocassete
 
O mais difícil desta época, para mim, era ficar esperando os filmes sobre os quais eu lia em jornais ou revistas. Ahhhhh, mas quando surgiu o videocassete!!! Que alegria... a oportunidade de assistir filmes de outros países ou não ter que esperar uma reprise de TV para rever algum título favorito!
 
Tudo bem, demorou um pouco para eu conseguir comprar o meu primeiro aparelho de videocassete em seis prestações de parcelas reajustáveis numa economia super-inflacionada, mas lembro-me de fazer conta na locadora e passar finais de semanas inteiros assistindo o máximo de filmes que meu mirrado salário permitia alugar.
 
Foi quando comecei a assistir os filmes sobre os quais só havia lido minha vida inteira... quantas descobertas! E que valor dávamos para aqueles “tesouros”.
 
Hoje é tudo muito fácil (não pensem que estou reclamando). Baixa-se um filme inteiro recém lançado nos cinemas em menos de uma hora pelo PC e já não existem músicas novas às quais não se possa ter acesso gratuitamente pela internet.
 
Não me entendam mal. ADOOORO a tecnologia e a facilidade de acesso que ela me traz a novos sons e imagens (será que a geração atual tem consciência da sorte que tem?), mas sinto falta da interação "olho a olho" que a antiga não eliminava. Lembro-me que, para apreciadores de música e cinema como eu, era um prazer se encontrar para trocar as últimas informações sobre nossos assuntos preferidos, trocar vinis ou revistas, atualizar-se sempre, tecer críticas e comentários, decorar nomes de diretores, atores, cantores e compositores. Líamos muito, mas conversávamos muito mais. Interagíamos muito mais...
 
Hoje esta troca ocorre mais virtualmente, com cada um em seu micro (aqui estou eu dividindo minhas opiniões sobre cinema através de um blog, que nem sei por quem ou quantas pessoas é acessado). Posso dizer: “não é a mesma coisa”. É um prazer registrar e compartilhar comentários e opiniões sobre cinema neste blog, mas não é suficiente. Quero a interação (ESCREVAM COMENTÁRIOS POR FAVOOOOOR...), o trocar críticas e comentários, informações e emoções que tal música ou filme despertam ao vivo, olho a olho também, não só registrar unilateralmente meu ponto de vista.
 

A arte não pode isolar. Deve ser não só compartilhada, mas também debatida, comentada, pensada, enfim... deve unir. Não percam isso!