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Fracassados que são um sucesso!

quinta-feira, 11 de junho de 2009

No sentido horário, James Spader em 'Sexo, mentiras e videoteipes', Dustin Hofman e Emma Thompson em 'Tinha que ser você' e a família de 'Pequena Miss Sunshine'

 

 

Não é preciso assistir a muitos filmes norte-americanos para perceber o quanto o rótulo “looser” (perdedor, fracassado em inglês) é temido como a pior das humilhações nos Estados Unidos. Chame um norte-americano de looser e garanta um inimigo para a vida inteira (para você) e uma conta de anos em terapia (para ele).

 

Não é a toa que uma das trilogias mais festejadas do cinema, “De Volta para o Futuro”, explora esta fobia americana. Viajando para trás ou para a frente no tempo, o jovem Marty McFly tem a chance de checar o quanto suas ações podem, numa reação em cadeia, influenciar o futuro de sua família, de forma a tornar seus integrantes eternos fracassados ou distintos e invejáveis membros da sociedade.
 
Para a nossa sorte, o cinema não é veículo exclusivo do status quo ou morreríamos de um tédio sem fim ao pé da tela grande, já que o circuito comercial brasileiro é mais de 70% abastecido pela indústria cinematográfica norte-americana. Uma corrente iniciada no cinema independente, com “Sexo, mentiras e videoteipes” (1989) –a estreia de um então jovem e promissor Steven Soderbergh (“Erin Brockovich” e “Che”) no cinema-, tem redimido e dado o devido valor a este perfil de norte-americano fora dos padrões.
 
O Graham (James Spader, lindo no auge de sua juventude) de “Sexo, mentiras...” é um desempregado que tem como hobby coletar depoimentos em vídeo de desconhecidos sobre suas relações com o sexo. Looser por opção e ainda machucado pela traição da noiva às vésperas do casamento, nove anos antes, ele se distancia das pessoas e de qualquer tipo de relacionamento pessoal ou intimidade por não aguentar mais conviver com as mentiras que acompanham a vida em sociedade. Seu reencontro com o amigo de infância John (Peter Galagher) - perfeitamente adequado ao “sonho americano” e um mentiroso de carteirinha-, vai provocar uma revolução na família deste.
 
Atenção para a cena de amor protagonizada por Spader e Andie McDowell, que considero uma das mais carinhosas e doces do cinema independente (confira abaixo).
  

 

'Perdedores' , mas bons de bilheterias

 

Muitos anos mais tarde, um de meus diretores preferidos, Cameron Crowe, conseguiria a proeza de, em um filme comercial, dar tratamento de herói a um protagonista rotulado de looser (e ainda conseguir boa bilheteria!!!).  É verdade que ajudou ter sido Tom Cruise a dar vida ao personagem-título de “Jerry MaGuire” (foto à direita), um executivo até então carreirista que, num surto de humanidade, passa a ser frito na empresa em que trabalha depois de distribuir um manifesto pregando um tratamento mais humano aos clientes. A partir de então, colegas e clientes -com exceção de uma secretária idealista e um cliente também com complexo de "perdedor"- passam a fugir dele como se tivesse uma doença contagiosa.
 
O mais recente libelo do gênero, “Pequena Miss Sunshine”, conquistou público e crítica com a história de uma família inteira de fracassados - um pai motivador cujas receitas de sucesso nunca dão certo, um avô viciado em heroína, um adolescente depressivo que não fala há nove meses, um tio homossexual e suicida, uma dona-de-casa insatisfeita e uma filha gorducha e míope - que decide atravessar o país numa Kombi velha para levar a caçula participar do concurso que dá nome ao filme. Nas situações inusitadas e hilárias que ocorrem pelo caminho, eles descobrem uma nova forma de agir como família e, de quebra, nos fazem refletir sobre a complexidade e armadilhas que encerram os conceitos de “fracasso” e “sucesso”.
 
Fique de olho!
 
Os loosers do romance "Tinha que ser você" ainda não são um sucesso (pelo menos comercial). E é improvável que sequer cheguem perto disso, já que, além de serem considerados "fracassados" -ele um músico americano prestes a ser demitido da agência para a qual compõe jingles publicitários, ela uma inglesa solteirona– são, digamos, maduros demais para os padrões dos casais românticos do cinema. 
 
Acontece que esta dupla é interpretada nada menos que pelos carismáticos Dustin Hoffman e Emma Thompson. Harvey (Hoffman) está na capital inglesa para o casamento da filha, que o tem em tão baixa conta que sequer o convida a acompanhá-la ao altar (prefere o braço do padrasto). Deslocado no ensaio do casamento, ele está prestes a voltar para os EUA sem ficar para a festa de casamento quando faz amizade, no aeroporto, com Kate Walker (Thompson).  A forma como esses dois “loosers” de meia idade se descobrem e se entendem para além das palavras, no espaço de poucos dias, em Londres, é sensível e apaixonante!
 
Os quatro filmes citados acima dão uma nova dimensão ao que a cartilha do “sonho americano” rotula como “fracassados”. Neles, os “loosers” são pessoas marginalizadas sim, mas graças a um modo adorável de viverem e portarem-se em desacordo com o modelo pré-estabelecido pelas convenções sociais - o que, vamos combinar, os torna muito mais interessantes!!!

 

Confira trailer de "Tinha que ser você": 

 

 

POSTAGEM RELACIONADA: "Cameron Crowe: prodígio e bissexto"


Comentários sobre esse post:
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lucas lima disse:
23 de junho de 2009 às 13h49

Pequena Miss Sunshine é uma delícia, confesso que logo quando acabei de ver disse que não havia gostado, mas depois este filme foi crescendo consideravelmente na minha estima. Um beijo, Sil.

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