
Quentin Tarantino filma 'Bastardos Inglórios': ele deve levar alguma estatueta
Confesso que relutei por muito tempo em assistir “Bastardos Inglórios” e que, não fosse ele um dos candidatos ao Oscar de Melhor Filme deste ano, provavelmente não me daria ao trabalho – como não me dei até hoje o de ver a “Kill Bill volumes 1 e 2”. A razão é a mesma para os três: não curto o cinema de Quentin Tarantino.
Antes que cinéfilos de todo o mundo me taquem pedras, saibam que não ignoro as qualidades de seu cinema original, com sua ironia inteligente quase beirando o absurdo e seu humor negro completamente fora dos padrões - grandes qualidades nesta indústria cada vez mais atada a receitinhas.
Minha restrição a Tarantino é estritamente pessoal: não gosto da forma como ele usa a violência como estética, fazendo-a parecer divertida. Jorros de sangue, pedaços de pessoas e assassinatos filmados de forma banal, como se não fossem nada demais.
Minhas preferências pessoais, porém, não me impedem de admitir: “Bastardos ...” é, até agora, o filme com mais chances de levar o Oscar da categoria, entre os nove (de dez) candidatos que assisti (só me falta ver “Um Homem Sério”, dos também endeusados irmãos Coen).
As qualidades do cinema de Tarantino estão todas lá, potencializadas pela participação do astro Brad Pitt –em atuação acima da média - e pela interpretação simplesmente fantástica do austríaco Christoph Waltz, que levou, mais que merecidamente, o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante deste ano pelo seu papel de investigador da SS. Se o filme não tivesse outras qualidades, a atuação magnética dele seria motivo suficiente para assisti-lo.
Mas a história dos feitos de um pelotão fictício de soldados americanos judeus com a missão de matar o máximo de nazistas que conseguirem é muito bem amarrada e brilhantemente contada. Cenas longas e tensas, como a deste investigador da SS interrogando um rancheiro que tem uma família judia escondida sob o assoalho, e a de um grupo de resistentes disfarçados de alemães em conversa de “gato e rato” com um oficial da Gestapo em um bar-porão de Paris, são de fazer prender a respiração.
A atriz resistente confraterniza com alemães antes de diálogo tenso em bar-porão de Paris
E a última parte do roteiro, que orquestra dois planos paralelos de matar os nazistas reunidos em um cinema para a pré-estreia de um filme-propaganda do regime, é um primor de arquitetura narrativa.
A violência gratuita e “engraçada” de Tarantino, infelizmente para mim, também está lá e, ao contrário de desabonar o filme como candidato, deve cacifá-lo, como sempre (americanos adoram isso).
Admito estas grandes chances de “
Bastardos Inglórios” levar o Oscar não sem melaconclia, pois minha torcida, até agora, é para “
Amor sem escalas”, por todos os motivos que relacionei no post a seu respeito (
clique aqui para ler). Mas quem sabe a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas não me surpreende agradavelmente, como no ano passado, dando a estatueta a uma produção com sotaque independente ("Quem quer ser um milionário?")?
Escrevo sobre outros concorrentes que já assisti – “Preciosa” e “Educação” - nas próximas postagens.
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