CINÉLIDE CINÉLIDE

‘Preciosa’ é um choque de realidade

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Gaborey Sidibe e Mo'nique como Preciosa e sua mãe em cena do filme

 

Não se deixe enganar pelo título de “Preciosa – Uma História de Esperança”, um dos dez concorrentes na categoria de Melhor Filme do Oscar 2010, nem pela presença no elenco dos ídolos musicais Mariah Carrey e Lenny Kravitz. Apesar de o título se justificar no final da história, até chegar lá o que se assiste é a um choque de realidade das mais tristes.

 

A história é narrada em primeira pessoa pela protagonista: uma jovem negra, obesa, vítima de abuso moral e sexual dentro da própria família, que refugia-se na imaginação para suportar as experiências ruins.

 

É até curioso e irônico que no meio dessa história crua apareçam dois ídolos do mainstream musical, na vida real embaixadores de um mundo irreal e colorido que é o do entretenimento, mas aqui travestidos de pessoas comuns, em constante contato com o sofrimento.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mariah Carey e Lenny Kravitz interpretam, respectivamente, uma assistente social e um enfermeiro que atendem Preciosa
 
A aparência da protagonista é o primeiro choque que nós, consumidores de cinema acostumados a heroínas esbeltas e carismáticas, levamos. Preciosa (Gaborey Sidibe) esparrama seu peso sobre uma carteira da sala de sala, de onde um recado para comparecer à diretoria vai tirá-la. A diretora manifesta sua desconfiança de que a garota de 17 anos esteja grávida do segundo filho “sem pai” (logo se descobrirá que o pai da criança é também o pai da adolescente).
 
A garota é encaminhada a uma escola alternativa, que decide freqüentar contra a vontade da mãe, uma alcoólatra que vive às custas do benefício social pago à primeira neta e que não perde uma oportunidade de espezinhar a filha.
 
Na nova escola, o cérebro adormecido e embrutecido pela violência caseira de Preciosa começa a tramar reflexões nunca antes experimentadas. A nova professora lhe impõe o hábito de escrever seus pensamentos em um caderno, através do qual ambas acabam se correspondendo.
 
Com as novas amizades e reflexões, Preciosa descobre também novas vontades e, com o tempo, uma coragem até então insuspeita de tomar as rédeas da sua vida e das de seus filhos. Aí é que entra a esperança.
 
Não é uma história de fácil de acompanhar, mas necessária, ao menos para nos acordar para essa realidade com a qual raramente nos importamos, encastelados que estamos sobre nossos cotidianos normais, nossas preocupações individuais e vidas planejadas.
 

Não sei se “Preciosa” levará o Oscar, mas merecia, por sua honestidade e intenções.

 

 

POSTAGENS RELACIONADAS: "Meu Oscar vai para..."; "Não alcancei a proposta de Guerra ao Terror"; "AVATAR: Avassalador"; "'Um Homem Sério' e mais uma confissão"; "Amor sem escalas: e daí que ter laços dá trabalho?"; "Oscar 2010 e um auto-desafio"; "Quem é esta boa atriz no corpo de Sandra Bullock?"; "'Distrito 9' traz frescor ao gênero"; "'Bastardos Inglórios' tem as melhores chances no Oscar 2010"; "O Segredo de seus olhos': filmão"

A melhor atuação da década pelos atores do ano

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Encontrei no site do UOL o vídeo abaixo, em que atores de filmes que estão na disputa do Oscar deste ano proclamam seus votos nas que consideram as melhores atuações da década. A iniciativa de colocar atores hollywoodianos discorrendo sobre seus pares foi do The New York Times.

 

Achei a idéia interessante e divertida, por isso compartilho a descoberta aqui, não sem dar meus próprios pitacos sobre cada voto.

 

Fecho total e apaixonadamente com a opinião de Julianne Moore - a atuação à qual ela se refere foi até citada por mim em postagem do ano passado (clique aqui para ver)- e com a de Colin Firth, cujo voto, carregado do infalível humor inglês, é uma atração à parte.

 

Impossível discordar de um gentleman do quilate de Morgan Freeman, não só pela credibilidade que seu talento confere ao voto, mas pelo charme com que ele o profere (deu pra perceber que sou fã do cara?)

 

Não faço a mínima idéia de quais são as interpretações às quais Jeff Bridges (supercotado para o Oscar deste ano na categoria),  Vera Farmiga e Zoe Saldaña se referem; achei muito nepotismo de Jake Gyllenhall indicar qualquer atuação do fraquíssimo cunhado (casado com sua irmã, Maggie Gyllenhaal, a Rachel do último "Batman"); e quase surtei com o voto inacreditável de Sam Worthington (vocês vão concordar comigo).

 

Ah sim... e é um prazer ver o austríaco Christoph Waltz - o nazista interessantíssimo de "Bastardos Inglórios" - discorrer sobre uma arte que domina com tanta elegância.

 

Confiram:

 

‘Bastardos Inglórios’ tem as melhores chances no Oscar 2010

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

 

Quentin Tarantino filma 'Bastardos Inglórios': ele deve levar alguma estatueta

 

Confesso que relutei por muito tempo em assistir “Bastardos Inglórios” e que, não fosse ele um dos candidatos ao Oscar de Melhor Filme deste ano, provavelmente não me daria ao trabalho – como não me dei até hoje o de ver a “Kill Bill volumes 1 e 2”. A razão é a mesma para os três: não curto o cinema de Quentin Tarantino.
 
Antes que cinéfilos de todo o mundo me taquem pedras, saibam que não ignoro as qualidades de seu cinema original, com sua ironia inteligente quase beirando o absurdo e seu humor negro completamente fora dos padrões - grandes qualidades nesta indústria cada vez mais atada a receitinhas.
 
Minha restrição a Tarantino é estritamente pessoal: não gosto da forma como ele usa a violência como estética, fazendo-a parecer divertida. Jorros de sangue, pedaços de pessoas e assassinatos filmados de forma banal, como se não fossem nada demais.
 
Minhas preferências pessoais, porém, não me impedem de admitir: “Bastardos ...” é, até agora, o filme com mais chances de levar o Oscar da categoria, entre os nove (de dez) candidatos que assisti (só me falta ver “Um Homem Sério”, dos também endeusados irmãos Coen).
 
As qualidades do cinema de Tarantino estão todas lá, potencializadas pela participação do astro Brad Pitt –em atuação acima da média - e pela interpretação simplesmente fantástica do austríaco Christoph Waltz, que levou, mais que merecidamente, o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante deste ano pelo seu papel de investigador da SS. Se o filme não tivesse outras qualidades, a atuação magnética dele seria motivo suficiente para assisti-lo.
 
Mas a história dos feitos de um pelotão fictício de soldados americanos judeus com a missão de matar o máximo de nazistas que conseguirem é muito bem amarrada e brilhantemente contada. Cenas longas e tensas, como a deste investigador da SS interrogando um rancheiro que tem uma família judia escondida sob o assoalho, e a de um grupo de resistentes disfarçados de alemães em conversa de “gato e rato” com um oficial da Gestapo em um bar-porão de Paris, são de fazer prender a respiração.
 
A atriz resistente confraterniza com alemães antes de diálogo tenso em bar-porão de Paris
 
E a última parte do roteiro, que orquestra dois planos paralelos de matar os nazistas reunidos em um cinema para a pré-estreia de um filme-propaganda do regime, é um primor de arquitetura narrativa.
 
A violência gratuita e “engraçada” de Tarantino, infelizmente para mim, também está lá e, ao contrário de desabonar o filme como candidato, deve cacifá-lo, como sempre (americanos adoram isso).
 
Admito estas grandes chances de “Bastardos Inglórios” levar o Oscar não sem melaconclia, pois minha torcida, até agora, é para “Amor sem escalas”, por todos os motivos que relacionei no post a seu respeito (clique aqui para ler). Mas quem sabe a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas não me surpreende agradavelmente, como no ano passado, dando a estatueta a uma produção com sotaque independente ("Quem quer ser um milionário?")?
 
Escrevo sobre outros concorrentes que já assisti – “Preciosa” e “Educação” - nas próximas postagens.
 
 
 

POSTAGENS RELACIONADAS: "Meu Oscar vai para..."; "Não alcancei a proposta de Guerra ao Terror"; "AVATAR: Avassalador"; "'Um Homem Sério' e mais uma confissão"; "'Preciosa' é um choque de realidade"; "Amor sem escalas: e daí que ter laços dá trabalho?"; "Oscar 2010 e um auto-desafio"; "Quem é esta boa atriz no corpo de Sandra Bullock?"; "'Distrito 9' traz frescor ao gênero"; "O Segredo de seus olhos': filmão"

'O Segredo de seus olhos': filmão!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Soledad Villamil e Ricardo Darín em 'O Segredo de seus olhos'

 

São muitos os aspectos que me encantaram em “O Segredo de seus olhos”, um dos concorrentes ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, que tem direção de Juan José Campanella (“O mesmo amor, a mesma chuva” e “O Filho da Noiva”) e co-produção de Espanha e Argentina.
 
Não se enganem com a simplicidade da sinopse: oficial de Justiça aposentado decide escrever livro sobre um crime que ajudou a esclarecer 25 anos antes. O grande barato da história está na forma como o protagonista, Benjamin Espósito (Ricardo Darín), tenta, por meio desta meta, entender o próprio passado e as escolhas que fez – ou deixou de fazer. 
 
Ao longo desta “re-memória”, ele resgata outras histórias e paixões vividas pelos personagens que gravitaram em torno daquele crime. Essas histórias se entrelaçam com a sua por meio de analogias, que a gente tem o prazer de ir identificando a conta gotas, à medida que o roteiro vai nos brindando, sem pressa, com flashes do passado, encaixados entre cenas do presente.
 
Inteligentes e não-lineares, roteiro e montagem não nos entregam facilmente as motivações de Espósito para rememorar fatos tão antigos e nem explica de cara que segredo ou desconforto isso instala entre ele e a amiga de muitos anos, Irene Menendez Hastings (Soledad Villamil) - atual promotora de Justiça e no passado advogada da seção em que ele trabalhava. Nós, espectadores, vamos fazendo as ligações aos poucos, conforme os flashbacks vão dando pistas sobre as causas da sensação de vazio que Espósito tenta explicar a si mesmo.
 
O segredo referenciado no título é sugerido (em meu entender) pelos olhares silenciosos que eventualmente Espósito e Irene trocam, sem que digam uma palavra fora do roteiro trivial a que se auto-restringiram há 25 anos.
 
Enfim, quando concluímos que o filme é sobre a dupla investigação de Espósito – a do crime do passado e sobre o que fez de sua vida nestes anos todos-, o roteiro nos brinda com outra surpresa, que, claro, não vou entregar aqui.
 
O filme acaba fundindo com maestria romance, drama, mistério e (quase ia me esquecendo) humor - particularmente as cenas de Espósito com o amigo Sandoval (Guillermo Francella) são muito engraçadas.
 
 Por isso tudo, à guisa de resumo, “O Segredo de seus olhos” merece o adjetivo: “filmão”!

 

 

 

POSTAGENS RELACIONADAS: "Meu Oscar vai para..."; "Não alcancei a proposta de Guerra ao Terror"; "AVATAR: Avassalador"; "'Um Homem Sério' e mais uma confissão"; "'Preciosa' é um choque de realidade"; "Amor sem escalas: e daí que ter laços dá trabalho?"; "Oscar 2010 e um auto-desafio"; "Quem é esta boa atriz no corpo de Sandra Bullock?"; "'Distrito 9' traz frescor ao gênero"; "'Bastardos Inglórios' tem as melhores chances no Oscar 2010"

Não alcancei a proposta de 'Guerra ao Terror'

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Acabo de assistir a mais um concorrente ao Oscar na categoria Melhor Filme: “Guerra ao Terror”, de Kathryn Bigelow. Ok, entendi que a diretora e co-roteirista quis ilustrar um novo tipo de doença criado pela guerra: o vício em adrenalina. “Got it... but, so what?”. E daí? De que me serve saber disso mesmo?

 

Tudo bem, sou uma espectadora suspeita por não morrer de amores por filmes de ação (espetáculos de cenas de perseguição e tiroteio me dão um tédio sem fim). Por isso não descarto a possibiidade de o problema estar em mim, que não alcancei alguma proposta mais profunda do filme.
 
Mas sou, sim, capaz de me sensibilizar por filmes de guerra que carreguem propostas de reflexão, como “Platoon”, “Apocalipse Now”, “Além da Linha Vermelha”, e não tenho nada contra filmes de ação que também tenham uma história consistente. Prova disso é que adorei dois filmes do gênero já assinados pela própria Kathryn Bigelow: “Caçadores de Emoção” (com Keanu Reeves e Patrick Swayze LINDOS em trajes surfistas) e “Estranhos Prazeres”, que tem um roteiro inteligentíssimo assinado por James Cameron (ex-marido de Kathryn) e Ralph Fiennes como protagonista.
 
No entanto, me desculpem os votantes da academia hollywoodiana, mas não consegui encontrar neste “Guerra ao Terror” nada de útil sobre o que pensar nem nenhuma grande história para me entreter. A mim parece um filme "sem alma". Sua primeira metade, em que o trio de soldados de um esquadrão anti-bombas fica só desativando detonações  - e dois deles ficam se estranhando o tempo todo, como dois infantilóides - quase me matou de tédio.
 
O único momento interessante para mim foi uma aparição de Ralph Fiennes, infelizmente muito rápida. Pude reconhecê-lo mesmo antes dele se livrar do turbante árabe que lhe envolvia toda a cabeça, deixando só o olhar livre. Foi o suficiente! (reconheço em qualquer tela aquele par de olhos claros e brilhantes, magnificamente expressivos).
 
Ok, os americanos devem ter visto algum sentido nisso tudo que não alcancei. Como também não consegui enxergar a "genialidade" que toda a crítica e a academia viram em “Onde os Fracos Não Têm Vez”, dos irmãos Coen, muito premiado no último Oscar.
 
O fato é que também não consigo alcançar a grande proposta a justificar a indicação de 'Guerra ao Terror' ao Oscar. Deve ser um daqueles filmes codificados para só um determinado gênero de platéia (da qual não faço parte) entender... vai saber?!