CINÉLIDE CINÉLIDE

O nazismo pelos olhos de uma criança

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Cena de 'O menino do pijama listrado': ingenuidade e nazismo

 

Chamem de inconsciente coletivo do cinema ou simplesmente oportunismo a atual onda de filmes que busca rever o nazismo de pontos de vistas de protagonistas incautos, inocentes, como “Um homem bom”, por exemplo - que mostra a perspectiva de um cidadão de bem seduzido pelo regime do fuher -, e “O menino do pijama listrado”, que assisti semana passada.
Neste último, a perspectiva é a de um garoto de oito anos de idade, que curte feliz a alienação da infância em um bairro nobre de Berlim. Quando seu pai - um militar do qual ele muito se orgulha - é promovido, a família toda se muda para uma região rural. Ali está instalado nada menos que um dos campos de concentração do nazismo, que será gerenciado pelo pai.
Seu contato com uma realidade até então impensável para sua família perfeita se dará através de uma cerca, à margem da qual ele passa a encontrar, todos os dias, um menino mais ou menos de sua idade que, a exemplo dos demais habitantes daquela estranha “fazenda”, só veste pijamas.
Aos poucos ele descobre que os “fazendeiros” não estão ali por escolha, mas como punição por serem judeus, delito cuja gravidade ele jamais entenderá a extensão.
Como em “A Culpa é do Fidel”, o tempo todo o ponto de vista que prevalece é o da criança. Nós, espectadores, sabemos o que cada pista que o menino pesca da realidade à sua volta significa, mas somos forçados a acompanhar pacientemente suas descobertas, o que acaba sendo instrutivo (qualquer novo ângulo de um mesmo problema é revelador).

O desfecho é dramático, como é de se esperar em qualquer filme que toque, ainda que superficialmente, o tema do holocausto.

Cinema ocidental e cultura indiana: esta paquera é antiga

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Já havia citado em minha postagem sobre o ótimo “Quem quer ser um milionário” que o encontro entre Bollywood (o cinema de entretenimento indiano) e o cinema ocidental, tão festejado pela imprensa por ocasião desta produção, não é tão novidade assim. Para provar, relaciono abaixo quatro filmes que assisti nos quais a “paquera” entre a cultura indiana e o cinema ocidental resultaram em bom entretenimento (em minha opinião, claro...rs).

 

“Driblando o destino”, de 2003, tem produção e atores ingleses, mas o roteiro e a direção são assinados por indianos - ou descendentes de (clique aqui para ler a ficha técnica). Sua maior curiosidade é trazer três atores à época ainda pouco festejados, mas que se tornariam, em poucos anos, verdadeiros “queridinhos da indústria”: Keyra Knightley, ainda na puberdade, aparece aqui de aparelhos nos dentes e ainda em um papel secundário; Pasminder Nagra, que em seguida viria a interpretar a médica Neela Rasgotra do seriado E.R. (“Plantão Médico” no Brasil) ainda era uma ilustre desconhecida e Jonathan Rhys Meyers (de “Ponto Final – Match Point” e “O Som do Coração”) nem sonhava em ser escalado para um papel de protagonista em um filme de Woody Allen.
No filme, a personagem principal é a adolescente Jesminder, filha de uma família indiana radicada em Londres que faz questão de seguir, em seu pequeno e fechado círculo social, os mesmos costumes tradicionais do país natal. Isso tem um custo alto para as filhas, divididas entre a obediência aos pais e a atração exercida pelos costumes mais liberais do país em que cresceram.
Apaixonada por futebol, Jesminder tem no jogador inglês David Bekham seu grande ídolo e quando consegue ser aceita e ter seu talento reconhecido em um time profissional feminino, terá que escolher entre seu sonho e a obediência à família.
 
Jane Austen na Índia
 
No ano seguinte, a mesma diretora de “Driblando o destino”, Gurinder Chadha, assinaria uma adaptação “bollywoodiana” do clássico de Jane Austen “Orgulho e Preconceito”. Sob o título de “A Noiva e o Preconceito”, a co-produção anglo-americana resultou em um misto DIVERTIDÍSSIMO de comédia romântica e musical.
A história, quem curte Jane Austen –ou todas as adaptações cinematográficas já feitas de seus livros- já conhece bem: dois amigos ricos chegam à cidade e viram alvo de uma mãe ávida para casar algumas das suas quatro filhas solteiras. No caso de “A Noiva e o Preconceito”, a cidade é Nova Delhi, capital da Índia, os amigos são dois advogados –um americano e o outro indiano em férias no país natal- e a mãe a matriarca de uma tradicional família indiana.
 
A atriz indiana Aishwarya Raí foi descoberta pelo cinema ocidental neste filme e voltou a protagonizar outra produção anglo-americana com um pé na Índia no ano seguinte. Em “O Sabor da Magia” (título brasileiro para “The Mistress of Spieces”, este sim homônimo ao livro indiano que inspirou o filme), Gurinder Chadha era apenas um dos produtores, e a direção ficou a cargo do desconhecido Paul Mayeda Berges.
Aishwarya interpreta Tilo, dona de uma loja de especiarias em São Francisco (EUA) que possui o dom mágico de transformar seus ingredientes em poções para curar as pessoas. Porém, ela só mantém o dom se mantiver-se fiel às regras sagradas de nunca provar alguma de suas receitas ou se apaixonar, o que –claro- eventualmente acaba ocorrendo.
 
A força das raízes
 
 
Nome de família”, da indiana Mira Nair, é o único drama desta lista. Sensível, mostra a adaptação de um casal indiano aos Estados Unidos, embora sem abrir mão de sua identidade indiana. Em sua segunda parte, o filme enfoca a segunda geração pelos olhos do filho mais velho, Gogol, que passa a buscar sua própria identidade, tendo que lidar com as tradições de sua família e seu direito de nascença americano, em um primeiro momento rejeitando seu próprio nome e as tradições de família. Uma tragédia familiar o fará aceitar e conciliar sua herança cultural com seu histórico de vida.
O que todos esses filmes têm em comum, além de uma pequena amostra dos costumes e cultura indianos, é um modo de filmar bem diferente do modelo hollywoodiano. As histórias são leves, mas nada superficiais e o ritmo mais lento, porém nem um pouco enfadonho. Convidam à contemplação e à reflexão em cada cena.

Para mim, foram ótimo entretenimento.

Sean Penn é o melhor motivo para assistir ‘Milk - A Voz da Igualdade’

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Sean Penn (centro) está, como sempre, impressionante em mais um papel difícil

 

Se tivesse que resumir em um só adjetivo o que achei de “Milk – A Voz da Igualdade” – o último dos cinco concorrentes ao Oscar de Melhor Filme deste ano que me faltava assistir”- seria: INSTRUTIVO.

Confesso, foi o que menos me emocionou entre os cinco, embora a atuação de Sean Penn como o protagonista Harvey Milk, ativista pelos direitos gays na São Francisco da década de 70, valha pelo conjunto todo da obra. A forma como ele preenche a cena, por mais enfadonha e sem ritmo que ela se apresente, justifica continuar assistindo (e também o prêmio da Associação dos Produtores que recebeu no último Screen Actors Guild).
Escolhi o adjetivo instrutivo pela importância da história narrada: numa década em que campanhas políticas ainda usavam chavões homofóbicos e preconceituosos para conquistar votos, Harvey Milk conclamou todos os gays de São Francisco –e mais tarde de todos os Estados Unidos- a “saírem do armário” para lutarem juntos por seus direitos.
Após muitas tentativas, acabou elegendo-se como o primeiro supervisor de distrito de uma grande cidade americana, e sua carreira política teria ido muito mais longe se não tivesse sido assassinado por um colega invejoso de suas conquistas, em 1978. Sua morte provocou a maior passeata da história de São Francisco, com 30 mil pessoas carregando velas em silêncio pelas ruas da metrópole.
Se posteriormente os gays americanos conseguiram derrubar muitas leis preconceituosas e fazer aprovar outras que punem a violação a seus direitos, foi devido ao trabalho iniciado por Milk.
É importante lembrar e eternizar figuras como esta e não consigo pensar em um meio que atinja mais pessoas com maior eficácia do que o cinema para promover este reconhecimento público. Não quer dizer que todos os filmes que o façam serão emocionantes.
 

Confira o trailer a seguir:

 

 

POSTAGENS RELACIONADAS: O curioso caso de Benjamin Button”, “Quem quer ser um milionário”, “Frost/Nixon”, "O Leitor"

'O Leitor': melancolia e lirismo

domingo, 1 de fevereiro de 2009

 

Não tenho adjetivos superlativos para “O Leitor”, um dos concorrentes ao próximo Oscar de Melhor Filme, mas nem precisa. Um filme não precisa ser sempre retumbante para ter beleza. Como já disse repetidas vezes, não é de críticas que tratam as postagens deste blog, mas dos sentimentos e reflexões que diferentes obras cinematográficas despertam em mim.

 

E o sentimento mais constante em mim durante minha sessão particular do filme de Stephen Daldry (diretor também do belíssimo “As Horas”) foi de uma morna melancolia misturada a grandes doses de lirismo (principalmente nas cenas em que Kate Winslet mostra o seu melhor).

 

Não é de vidas extraordinárias que trata “O Leitor”, ao contrário. É a vida ordinária de uma alemã pobre e sozinha a catalisadora de toda a emoção, embora a história seja mostrada do ponto de vista do personagem masculino.
 
Michael Berg (sensível e maravilhosamente interpretado por Ralph Fiennes na fase adulta do personagem) é o filho de uma rica família alemã que na adolescência tem um caso com Hanna, uma mulher mais velha cujo maior enlevo é ouvi-lo ler os livros que ele leva para seus encontros amorosos.
 
Hanna desaparece três meses após se conhecerem e ele só voltará a vê-la anos depois, em um tribunal, onde ele assiste, como aluno de Direito, ao julgamento da antiga amante, que descobre ter sido guarda de um campo de concentração antes de se conhecerem.
 
O filme apenas sobrevoa a questão da culpa nazista, pois “O Leitor” é todo sobre amor e enlevo. Amor reprimido de Michael, que nunca mais soube se entregar a ninguém como o fez em sua iniciação sexual com Hanna, e enlevo de Hanna que, ao ouvir a leitura de grandes obras ou o coro de crianças numa igreja, despe a armadura de frieza para emocionar-se até às lágrimas.
 
Michael encontrará um meio de reatar a ligação com Hanna após sua condenação à prisão, mas de uma forma tão sensível e romântica quanto tênue e frágil (não descreverei aqui para não estragar o prazer de quem ainda vai assistir ao filme).
 

Desnecessário dizer que Kate Winslet está avassaladora no papel, justificando o Globo de Ouro, o Screen Actors Guild e a indicação ao Oscar de Melhor Atriz que já recebeu por ele. Mas faço questão de destacar a atuação de Fiennes, econômico, profundo, carismático - parece que carrega todas as emoções do mundo nos olhos. Merecia ser mais lembrado pelas premiações de Hollywood.

 

Veja o trailer:

 

object width="550" height="439">

 

 

POSTAGENS RELACIONADAS: O curioso caso de Benjamin Button”, “Quem quer ser um milionário”, “Frost/Nixon”, "Milk - A Voz da Igualdade", "Ralph Fiennes: todas as emoções do mundo no olhar"

'Quem quer ser um milionário?" merece o Oscar

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Ainda faltam dois concorrentes ao Oscar de Melhor Filme para eu assistir (“Milk – A Voz da Igualdade” e “O Leitor”), mas já tenho meu favorito na corrida. E é o mesmo das últimas premiações do Globo de Ouro e do Screen Actors Guild Awards (o prêmio que a Associação dos produtores dos EUA dá aos melhores atores do ano, votados pelos próprios): “Quem quer ser um milionário”. 

 
O encontro da história criada pelos indianos Vikas Swarup (romance) e Simon Beaufoy (roteiro) com a direção do inglês Danny Boyle (de “Cova Rasa”, “A Praia” e “Trainspotting”) resultou em um ótimo e original filme, que mistura, em doses harmônicas, a crueza de “Cidade de Deus” e um romantismo doce, quase ingênuo.
 
Desde a primeira cena sabemos que um jovem está prestes a se tornar um milionário no programa de televisão que dá nome ao filme, mas às vésperas da grande final ele tem que convencer os policiais que o torturam de que não chegou tão longe no jogo de perguntas e respostas trapaceando - afinal, de que outra forma um ex-favelado semi-analfabeto teria chegado mais longe do que grandes estudiosos jamais conseguiram?
 
O recurso que o roteiro utiliza para que conheçamos os fatos que o levaram a acertar cada resposta é genial. Na delegacia de polícia, delegado, torturador e vítima assistem juntos ao teipe das gravações do programa até ali. Para cada resposta que o jovem acerta, ele narra um episódio de sua vida que o fez conhecê-la.
 
Nesses flashbacks, a Índia que se vê na tela não é a turística do Taj Mahal, mas a das favelas miseráveis da antiga Bombaim e da zona do meretrício de Mumbai, por exemplo. Por esse submundo circulavam os irmãos Salim e Jamal, que muito cedo perdem a mãe, em um massacre promovido por fanáticos religiosos na favela em que moravam - mesmo massacre que deixou órfã a menina Latika, que forma com os meninos um trio que gostam de chamar de “Os Três Mosqueteiros”.
 
Aos poucos, vamos descobrindo que não foi a ganância que levou Jamal ao jogo, mas um motivo muito mais humano e romântico (ai, ai...).
 
Paquera antiga
 
“Quem quer ser um milionário” está sendo festejado pela imprensa como “o” encontro de Bollywood (o cinema de entretenimento indiano) com Hollywood, mas a comunidade cinéfila sabe que esta paquera entre o cinema ocidental e a cultura indiana não é nova, como o provam os filmes “Driblando o destino”, “A Noiva e o Preconceito”, “O Sabor da Magia” e “Nome de Família”, entre outros (falo sobre isso em uma próxima postagem, com direito a comentários sobre as melhores produções em que assisti a cultura indiana confraternizar com o cinema ocidental).
 

A maior diferença entre “Quem quer ser um milionário?” e os filmes citados acima é o mergulho total que este faz no cotidiano indiano no que ele tem de mais realista - todo rodado nas partes mais pobres de cidades indianas, o filme tem grande parte dos diálogos falados no idioma local.

 

 Assista a trailer abaixo 

 

POSTAGENS RELACIONADAS: O curioso caso de Benjamin Button”, “Frost/Nixon”, "O Leitor"; "Milk - A Voz da Igualdade"