O desejo de ser mãe nasceu em mim muito cedo. Acredito que por volta dos 10 anos, quando minha irmã caçula, a Tati, nasceu. Lembro-me da minha mãe anunciando a gravidez, da escolha do nome, do parto e do dia que ela chegou em casa. Teve icterícia e, para sair do hospital, meus pais assinaram um termo de responsabilidade sobre o bebê, atestando que, se ela morresse, a culpa era deles.
Ela chegou uma semana antes da minha primeira eucaristia, com icterícia. Ninguém podia pegá-la, só minha mãe, para dar mamar. O meu sonho de que ela fosse na minha primeira eucaristia caiu por terra. Nem minha mãe foi. Não podia deixar o bebê. Lembro das pessoas indo visitá-la, olhavam-na de longe, assim como eu... Quando ela estava com dez dias de vida, longe do perigo de morrer, minha mãe a tirou do berço e me deixou pegar o bebê no colo um pouquinho. Foi um momento mágico, do qual me lembro até hoje. Uma sensação incrível de felicidade. Peguei na mãozinha dela e ela segurou a minha com muita força (os bebês têm esse reflexo quando recém-nascidos), mas interpretei como sendo um sinal de amizade, de carinho, admiração, dedicação, de amor total e de um relacionamento lindo que se seguiria por muitos anos.
Hoje, 24 de novembro, ela faz 20 anos e ainda me emociono quando lembro que, naquele dia que a peguei pela primeira vez, de noite, ela chorou e eu fui até o berço, roubei a bebê, levei para minha cama (a de cima da beliche) e dormi com ela. Dei um susto danado nos meus pais, mas tudo tinha mudado: deixei minha bebezinha de plástico para me dedicar diariamente à minha bonequinha de verdade. Quando olho para a mulher que ela se tornou, sinto muito orgulho, de mim e dela, de tudo o que compartilhamos e aprendemos uma com a outra.
Por isso, hoje, dedico esse post a ela, com um poeminha de Vinícius de Moraes, que diz o seguinte: "não posso, Tati, te juro, não posse viver sem ti/ Tu é meu cantinho escuro/ Meu verso por descobrir". Te amo, princesinha...
Redondilhas para Tati
Sem ti vivo triste e só
(Bastasse o que já sofri... )
Sem ti sou ermo, sou pó
Sou tristeza por aí...
Sem ti... ah, dizer-te a ti!
Mas se me cerra o gogó
Como se tivesse aqui
Um naco de pão-de-ló!
Sem ti sou pena de Jó
Sou ovo de juriti
Sem ti sou carandaí
Tamandaré, Mossoró
Sem ti sou um qüiproquó
Um oh, um charivari
Sem ti, sou de fazer dó
Sou de fazer dó-ré-mi
Meu benzinho de totó
Meu amor de tatuí.
Mas sou forte não reclamo
Sou bravo como Peri
– Não, mulher, já não te amo!
(É brincadeira, hem, Tati... )
Tati, Tatuca, Tatica
Onde ficou minha tática
Perdi toda a velha prática...
Esta vida é uma titica.
Ah, garota, francamente
Nem sei mais o que pensar
És tu que estás tão presente
Ou eu que fui me casar?
Não posso, Tati, te juro
Não posso viver sem ti
Tu és meu cantinho escuro
Meu verso por descobrir
És meu eterno oxalá
Em terra de alibibi
És meu trecho de Zola
Repassado por Delly
És Totonha, Tatiana
Tereza, e nunca Tati
És extrato de lavanda
Rotulado por Coty
Beatriz?... mas quem és tu
Para Dante abandonar?
Sereis um merci bocu
De praga de pai Exu
Para cima de moá?
Não! Tu és como o penedo
E eu... como a onda do mar
És a sombra do arvoredo
E eu... pastor a descansar
Sou o ouvido, és o segredo
És a luta, eu sou a paz
És Beatriz Azevedo
E eu Vinicius de Moraes.