Não. Eu não me confundi. Sei que existem as garotas que fazem comerciais de produtos e também sei que existem as garotas que fazem programas sexuais para viver. Assim, ambas garantem sua forma de sustento.
O que eu vi hoje em Araraquara foi exatamente a mistura dos dois. Como? Simples.
Descia a avenida José Bonifácio, centro da cidade, quando paro no semáforo com a rua São Bento, popular Rua Três, bem na esquina da Igreja de Santa Cruz e de uma grande rede de hipermercados.
Este ponto é tradicionalmente conhecido por ser povoado de panfleteiros, aqueles jovens que entregam folhetos, panfletos, filipetas, folders, calendários, malas-diretas, jornaizinhos, tablóides promocionais e diversos outros tipos de propaganda impressa.
Por já conhecer este espaço eu tradicionalmente paro e já estendo a mão para pegar cada um destes folhetos. O fato é que, em meio ao calor da manhã de verão desta quinta-feira na Morada do Sol, aliado ao trânsito e os diversos afazeres do dia, quase nem reparo em uma das panfleteiras.
Era uma senhora na casa dos 50 anos que vestia um minúsculo top azul com uma saia preta. Nesse meio tempo abre o semáforo e nem dá tempo de prestar atenção. Quadras adiante coloco o carro no estacionamento, pois não tenho coragem de pagar a taxa cobrada na rua e, ainda assim, correr o risco de ter meu carro roubado.
Lá, percebi entre os panfletos um menor, feito à mão. Na tira de papel dizia: "Trabalho temporário", com uma seta indicando para que o leitor se atentasse ao verso.
Virando a folha encontramos o tal trabalho: "Coroa Fogóza 51 (sic) faz programa. De 20 a 40 anos". Também estava o telefone e o nome.
"Caramba", pensei. A própria panfleteira faz sua propaganda. Sem agência, sem planejamento de marketing. Durante alguns minutos vi sua estratégia comercial: apenas entrega seus panfletos (bem recortados e com boa caligrafia) em veículos dirigidos por homens. Ainda assim entregou em alguns com casais. E se a esposa do motorista no banco do passageiro viesse a reclamar? Teria de ligar para algum "Serviço de Atendimento ao Cliente"?
Veja a propaganda que ela entregava. Apaguei o telefone, por motivos óbvios.

Isso mostra também o ponto em que chega a humanidade. Oferecer seu corpo na esquina já é possível ver no meio da noite em lugares afastados. Mas, além disso, usar propaganda nas ruas centrais em plena manhã de quinta-feira? Só podemos lamentar.
Não estou criticando a postura desta mulher e nem quero o sentimento de piedade. Apenas fiz o registro de uma cena atípica do cotidiano desta Araraquara quase bicentenária.
Mais uma das coisas estranhas da nossa cidade que, como diz a colega blogueira Marcia Ceschini, mais parece a cidade de Sucupira.
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