
Quando vi o anúncio de que Meireles dirigiria para as telas um dos livros mais famosos de Saramago, me ocorreu um momento muito orgulhoso, no sentido em dizer: “finalmente um grande reconhecimento no mundo será feito com o cinema Brasileiro”.
Já havia admirado o cinema de Meireles com Cidade de Deus e o Jardineiro Fiel. Um, uma produção brasileira com técnicas inovadoras, excelente roteiro e belíssimas atuações com não atores; o outro com produção americana, técnicas precisas e respeitável, uma maravilhosa adaptação para roteiro e uma excelente escolha de elenco. Meireles surpreendeu, ganhou reconhecimento e prestígio no mercado internacional, com a notícia de seu novo filme, mais uma vez eu pensava, há muito tempo que não esperava um filme com ansiedade e esperança sob o comando de um brasileiro na direção. Um filme ao qual se baseia um livro reconhecido mundialmente seria a corda para o topo na escalada do Everest para o mercado internacional cinematográfico. Assim a inter-relação do cinema Brasileiro com o mercado Internacional seria perfeito para o futuro do cinema no Brasil. Claro, hoje em dia leva-se um tempo para esperar as estréias na cidade. Temos que nos conter com as indesejáveis esperas de boa vontade dos distribuidores e os pedidos dos próprios administradores dos cinemas da cidade a trazerem nomeadas estréias para nós. Claro, nas sextas, como de costume, lemos as críticas sobre as estréias nas capitais e a aqui niente. Depois de um tempo, claro, chega aos cinemas de Araraquara.
Fui à estréia, confesso que não li o livro, não por falta de interesse, mas no decorrer dos momentos ao qual designava meus objetivos de trabalho, Saramago em Ensaio sobre a Cegueira, sempre ficou a me esperar. Não há como não saber sobre a história ou as diversas posições das críticas, mas preso aqui a análise da imagem e roteiro como um filme e não uma comparação com a obra literária. Isso, provavelmente os blogueiros de literatura irão comentar.

De cara, sempre imaginei que um filme sobre cegueira. Seria lógico que uma grande parte do filme, não veria nada. Isso é extremamente rico e algo que sempre busquei encontrar no cinema, o sugestivo da sonoplastia, engloba uma pré-visualização através da imaginação, o que remete essa “visualização” uma transgressão a vivencia cultural que trabalha no inconsciente, tornando o não visível, “visível” na mente, e o que não vemos, permanece à frente dos pensamentos.
Logo em que saí da sala de projeção, concluí em meus pensamentos: “a cegueira de Meireles, não tampou meus olhos”. Claro, o filme tem seus méritos em diversos pontos, mas a seqüência inicial e a trilha sonora do filme foram para mim, as mais decepcionantes dentre mais de 110 minutos de projeção.
Inicialmente, acho que Don McKellar, o roteirista, deveria ter dramatizado mais com o primeiro personagem que recebe a cegueira, fato extremamente importante para a introdução à epidemia. Não sei como é no livro, mas uma cegueira repentina com alguém em que está em plena direção parado no semáforo, o falso desespero na atuação de Yusuke Iseya, não me convence nem mesmo tampando os olhos, nesse ponto é Meireles o guia.
As cenas em que mais me impressionaram foram à tomada dos olhos do primeiro cego, no campo de visão da porta de seu apartamento, assim como as pequenas seqüências de saturação de imagem do diretor de fotografia César Charlone , também o responsável pelas imagens de Jardineiro Fiel.
Já a edição de Daniel Rezende, o mesmo de Cidade de Deus e Tropa de Elite, também não me gerou satisfação. Isso, pois acho que deve ter encontrado problemas com o casamento da imagem com a trilha de Marco Antônio Guimarães (Lavoura Arcaica), algo inacreditável, pois ambos são excelente, mas as seqüências em que a sonoplastia de um semelhante tic tac de relógio para uma das cenas mais dramáticas do longa, aquela em que Julianne Moore esta a frente das mulheres na troca de sexo por comida, é algo terrível. A única explicação talvez seja para compor o ato de revolta no público, pois a mim incomodaram tudo, as mulheres ao se entregarem, o abuso dos homens, a imagem de Charlone, a trilha de Guimarães e a atuação de Bernal. Seqüência que de fato, a imagem tornou-se escura e não branca como se descreve no filme.
O que realmente valorizo, é a abordagem sobre a humanização dos personagens, o resgate emocional ao qual cada um enfrenta.

Pra mim, Danny Glover era o personagem principal. Mérito da narração, suas observações, desejos e colocações dos pensamentos sobre o ato epidemiológico. Memorável cena quando a esperança atinge o retorno da visão nos personagens. Mas acho que esse mérito cabe a Saramago, na origem da bela história. Fato curioso pra mim, pois fiquei com mais vontade de ler o livro, justamente para questionar a essência abordada no livro e o que de fato foi transposto para a tela.
O que me deixou surpreso, foram os comentários de terceiros quando diziam ser um filme de difícil leitura, pois não se entendia o motivo. Á mim, não há necessidade em saber o que provoca a cegueira, porém no filme, me passou um ato semelhante a um estado de julgamento pessoal, mas através de um fato que passa a ser globalizado, no caso, uma cegueira geral. Cada um dos personagens, por mais que seja pequeno, demonstrou um ato de “delito” emocional, ou mesmo um “motivo” para terem a cegueira. Algo em que no decorrer da história, se humanizam através da convivência e a união. Mas é claro, há de haver um “messias” a guiar o grupo de pessoal, ato no qual transgride sua humanização a seus atos de silêncio, o que assim, acarretou em várias mudanças internas. Sendo a última, uma deixa a uma possível cegueira, agora, única e inter-pessoal.