Doces ou travessuras?

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

 

... Travessuras, claro! Tranças na crina do cavalo, azedar o leite, enfim... coisas de Saci. Afinal, dia 31 de outubro, no BRASIL, é "Dia do Saci", desde de que a lei foi aprovada em 2004.

            Nada contra "raloins" ou qualquer outra cultura estrangeira, mas temos nossos próprios mitos e não podemos deixar que outros mitos inibam nossa auto-estima.

Temos que respeitar a cultura de fora mas valorizar ainda mais a nossa. Criar saci é criar Renato Andrade, é criar Renato Teixeira, Tom Jobim, Angelino de Oliveira, Paulinho da Viola, Mario Quintana, Vinicius de Moraes, Pena Branca e Xavantinho, Chico Buarque, João Donato, Glauber Rocha entre tantos brasileiros que contribuíram com nossa cultura.

Salve o Dia do Saci! Salve a cultura brasileira!

Kaai´pira e a viola de arame

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

 

 

O caipira picando fumo - Almeida Junior                Caipira, sim senhor! (e com orgulho)
 
                Caipira é uma denominação tipicamente paulistana nascida da miscigenação de brancos e índios. A palavra tem origem na língua indígena e significa, “aquele que vive afastado”, (Kaa – mato), (pir – corta mato) e (pira – peixe).
Não confundam com “sertanejos”, que essa é outra história. Como diria Chico Mulato (para quem não conhece vale a pena procurar): “Se me chamam de caipira, fico “té” agradecido, pois falando sertanejo posso ser confundido.”
Denominações a parte, tudo isso é só pra deixar claro que nesta postagem não falarei de grandes fivelas no cinto, mas sim daqueles mais afastados e muitas vezes ridicularizados.
O caipira que falo é tocador de viola, mas daquele que faz qualquer um se emocionar.
 
(breve histórico, me aprofundarei mais em futuras postagens)
 
A viola foi trazida pelos portugueses que, por sua vez, tiveram a idéia de aproveitar a música para catequizar os índios. (hm?)
Legal, a combinação igreja católica e índios não soa realmente muito natural, mas particularmente adoro a mistura musical que surgiu daí, e que também veio a acrescentar influências da música negra. (Alguns exemplos de ritmos caipiras: cateretê, caruru, catira, jongo...).
A viola de arame, ou viola caipira, viola de dez cordas, viola cabocla, viola de fandango, viola pantaneira, viola campeira, viola sertaneja ou viola de feira (esqueci de alguma?) acabou adotando diferentes afinações, com a idéia, em alguns casos, de “suprir” a dificuldade que as mãos duras da roça tinham em pontear (toque especifico de viola) o instrumento. Em outros casos, alguns dizem que foi para que os outros violeiros não imitassem o toque do violeiro que estava sendo observado. Entre algumas afinações, existem: a boiadeira, paraguaçu, rio abaixo - essa, há quem diga que é a afinação do coisa ruim, do chifrudo, do pé redondo, do cão, do cheira-enxofre, do bode, do “tar”, sabe aquele? Tem até alguns violeiros que se arriscam em fazer pacto com ele pra aprender a tocar viola de verdade. Eu até poderia explicar aqui como se faz o ´tar´ pacto, mas sou violeiro devoto de São Gonçalo, padroeiro dos violeiros, (contarei mais sobre ele em outra postagem).
Voltando às afinações, eu como bom caipira interiorano de São Paulo, uso cebolão, afinação que particularmente mais me encontrei na viola. O nome vem de Portugal e seu significado é simples. Sempre que um violeiro toca em cebolão as mulheres vão aos prantos e as lágrimas escorrem como se estivessem descascando cebola.
O caipira, esse ser escorregadio e desconfiado, abraçou a viola para contar sobre sua terra, seus amores, sua cultura e suas dores. É pra viola que o caipira se desabafa. Pode ser viola de cocho (feita com cocho de cavalo e cordas de tripa de mico, usada na maioria das vezes, ou de algum outro bicho) ou pode ser as outras violas já citadas acima. Certa vez, ouvi de um violeiro que o violeiro passa o dia desabafando para viola todas as suas mágoas de amor não correspondido. E quando ele encontra um amor, larga a viola, até que esse amor o largue e assim ele volta a tocar suas tristezas na viola. Para essa situação, ouvi de um violeiro que a música “Cabecinha no Ombro”, cabe perfeitamente, a qual ele interpretou como sendo um diálogo da viola com o violeiro. Depois dessa interpretação, vocês (assim como eu), nunca mais ouvirão essa música de outra forma.
Deixo aqui um dos grandes nomes da viola caipira, não, não é o tar não, é Renato Andrade, apesar de muitos violeiros já terem dito que ouviram por diversas vezes o ´tar´ se matando pra tentar tocar igual Renato, mas ainda não conseguiu. Acho que continua tentando. Até a próxima...
 
 
 

 

P.S.: Assistam o programa do Rolando Boldrin toda terça à noite na Cultura.
 
P.S.2: A figura que ilustra o texto é do pintor Almeida Junior e é sempre utilizada como referência nesse tema. O nome da obra é “O caipira picando fumo” e retrata bem a figura do caipira sentado no chão batido com uma casa típica do campo ao fundo. O quadro também é referência em estudos de fotografia. O pintor foi um dos maiores expoentes na retratação da “luz tropical”, luz típica de nosso país que muitas vezes outros pintores tentavam suavizar, dando assim, uma idéia de luz européia. Na fotografia, Waldemar Lima também estudou muito essa luz, mas isso vou deixar para o Barreto falar no blog dele.

VIOLA CAIPIRA: INTRODUÇÃO

terça-feira, 14 de outubro de 2008

 

Deixo aqui uma introdução para futuras postagens pois pretendo escrever mais sobre uma de minhas maiores paixões, a viola caipira. As palavras abaixo são do poeta Manuel Bandeira que depois de ver Otacílio Batista cantar durante um festival de violeiros, fez os versos a seguir.

 
 
Anteontem, minha gente,
Fui juiz numa função
De violeiros do Nordeste
Cantando em competição,
Vi cantar Dimas Batista,
Otacílio, seu irmão,
Ouvi um tal de Ferreira,
Ouvi um tal de João.
Um a quem faltava um braço
Tocava cuma só mão;
Mas como ele mesmo disse,
Cantando com perfeição,
Para cantar afinado,
Para cantar com paixão,
A força não está no braço,
Ela está no coração.
Ou puxando uma sextilha,
Ou uma oitava em quadrão,
Quer a rima fosse em inha
Quer a rima fosse em ao,
Caíam rimas do céu,
Saltavam rimas do chão!
Tudo muito bem medido
No galope do Sertão.
A Eneida estava boba,
O Cavalcanti bobão,
O Lúcio, o Renato Almeida,
Enfim toda comissão.
Saí dali convencido
Que não sou poeta não;
Que poeta é quem inventa
Em boa improvisação
Como faz Dimas Batista
E Otacílio seu irmão;
Como faz qualquer violeiro,
Bom cantador do Sertão,
A todos os quais humilde
Mando minha saudação.”
 
 
OBS: Djavan fez uma belíssima versão desses versos na música “violeiros”, presente no álbum “Coisa de Acender”, lançado em 1992.
OBS 2: Em breve mais viola e violeiros nesse blog.

NO HAY BANDA

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

 

 

O lado cego do cinema.”

 

A ausência de músicos em muitas trilhas tem me deixado preocupado. A tecnologia vem ajudando muito a produção musical e até auxilia na criatividade aumentando as possibilidades de criação.

                Têm surgido cada vez mais programas de computador que simulam sons e auxiliam na composição (o que é muito bom). Na verdade, acho que esses programas, de certa forma, até ajudam na criação. Mas o que vem acontecendo (opinião pessoal), é que a importância da música para muitos vem se perdendo, talvez até por essa “facilidade” de hoje.

                Essa facilidade em criar (será que é criar?), faz com que nos deparemos cada vez mais com músicas sem a menor inspiração; músicas que estão aí para vender ou simplesmente suprir o ego de quem cria.

Na televisão é fácil perceber quando uma trilha é feita totalmente no computador. A “criatividade” se limita a fazer a trilha pedida pelo produtor sem qualquer tipo de raciocínio. Alguns fraseados de flauta criados no computador, por exemplo, soam totalmente falsos; quero dizer, como é possível aqueles fraseados sem um tempo de respiração? Não sou nenhum especialista no instrumento, mas não tem como não notar a diferença desse som para um real, tocado por um flautista. Nada contra o recurso, até poderia servir perfeitamente para a função, mas o descaso com a música faz com que ela seja deixada cada vez mais para escanteio.

As composições se limitam apenas à utilização de técnicas aprendidas para criar climas de suspense, comédia, romance, mas muitas vezes não funcionam simplesmente por se tratarem de técnicas “frias”. (O quê?). Vou chegar lá (pelo menos tentar).

A falta de dinheiro para produção de uma trilha sonora (Brasil-sil-sil) não deixa que essa área cresça como deveria. Nesse caso, os músicos são obrigados a abandonar orquestras e usarem programas que simulem uma, já que sai bem mais barato do que pagar todos os músicos.

Em muitos casos, a composição no computador funciona perfeitamente e de uma maneira muito legal. Ex: André Abujamra. Voltando ao assunto da flauta, muitas vezes o som produzido pelo computador pode passar despercebido quando feito com conhecimento. Em outros casos, a música acaba se desvirtuando completamente da imagem proposta pelo diretor do filme. (Acho desnecessário usar exemplos aqui). O maior problema talvez seja da mecanização do próprio operador que muitas vezes não tem a menor inspiração e se limita apenas a raciocínios lógicos para a criação.

(Agora acho que cheguei) O maior problema de tudo isso é a falta de vivência musical. É extremamente importante a vivência com os músicos, com a obra e principalmente com o diretor do filme.

O título da postagem foi retirado de uma cena do filme “Cidade dos Sonhos”, de David Lynch. É uma das cenas que mais gosto no cinema, mas vou deixar esse assunto para ser comentado por quem sabe, em outro Blog (Gui, fique à vontade). A trilha foi composta por Angelo Badalamenti, músico parceiro de Lynch em vários filmes.

O motivo da referência do título da postagem com Angelo foi simples. Apesar do filme, inclusive a cena, não ter nada a ver com o tema da postagem, a frase cabia bem (:P) e Ângelo é um dos grandes exemplos de composição de trilha para cinema. Ângelo tem a preocupação e a consciência de que sua trilha irá influenciar diretamente com a narração da cena, então seu diálogo com o diretor é constante.

Quem acompanhou o trabalho do músico, nesse caso até seria legal usar os filmes de Lynch como exemplo, pode reparar como a trilha casa perfeitamente com a cena proposta. No caso dos filmes de Lynch onde muitas vezes há um sul-realismo, Angelo consegue auxiliar com maestria o clima proposto pelo diretor, aumentando a tensão ou o suspense das imagens exibidas na tela. O “ritmo” das imagens e da música caminham juntos.

Enquanto isso os programas de computador para composição estão cada vez mais avançados e têm sim ajudado e muito nas produções musicais. Agora, já não posso afirmar que eles são os causadores da falta de inspiração já que muita música boa é composta com a ajuda deles. Mas, pessoalmente, sinto falta de ver bandas de verdade em certas situações.

“Silenzio. No hay banda. There is no band”.

 

Algumas trilhas que gosto muito:

• Os Incríveis (Pixar) – trilha de Michael Giacchino

• Indiana Jones / Star Wars / Superman – trilha de John Williams

• Psicose – trilha de Bernard Herrmann

• O Poderoso Chefão - trilha de Nino Rota

• E mais inumeras outras que poderia estar citando aqui mas a postagem ficaria muito longa.

 

 

 

 

Pós-postagem:
Lembrei de um fato que ocorreu na criação da trilha do “Psicose”.
Hitchcock havia dito para Bernard Herrmann que não queria trilha alguma na famosa cena do chuveiro, ele queria apenas o som ambiente. Herrmann ficou um pouco desapontado e na semana que Hitchcock precisou viajar ele preparou a trilha sem contar ao diretor e inseriram na cena.
Quando Hitchcock voltou e foi assistir a cena pronta (sem ser avisado de qualquer coisa, claro!), levou um baita susto ao ouvir os sons dos violinos criados por Bernard Herrmann. Hitchcock se virou para o músico e disse que nunca mais ele iria evitar de usar uma trilha de Herrmann. Hoje a trilha já é referência e eu não posso evitar de colocá-la nessa postagem.

"PARA LENNON E MCCARTNEY"

domingo, 5 de outubro de 2008

Lô Borges - Harmonia (2008)              A influência de Beatles na vida dos mineiros, em especifico dos mineiros do “Clube da Esquina”, foi sempre muito clara. Quem acompanha o trabalho do grupo de Belo Horizonte - formado inicialmente por Toninho Horta, Milton Nascimento, Wagner Tiso, Fernando Brandt, Nivaldo Ornelas, Paulinho Braga, Márcio Borges e Lô Borges - percebe que essa influência é clara.

Os mineiros tinham forte influência dos quatro caras de Liverpool, mas também traziam grandes influências da música folclórica dos negros, do jazz, da bossa-nova e até da música latina, sem contar, é claro, do rock progressivo. No Brasil, talvez a importância inicial do Clube não tenha sido tão evidente (como já vi em alguns textos) e acabaram passando despercebidos por muitos se comparados com outros grandes movimentos brasileiros, como a Tropicália, por exemplo. Flavio Venturini, Vermelho e Tavinho Moura ao se integrarem ao grupo, em sua segunda geração, só vieram fortalecer ainda mais as raízes musicais do grupo.Lô Borges

Já em carreira solo podemos perceber que apesar da particularidade de cada um dos integrantes, a essência do grupo não se perdeu. É o que podemos perceber no 12º álbum que Lô Borges lançou agora em 2008, “Harmonia”, para a alegria dos fãs. 

Desde 2003, com o álbum “Um dia e meio”, Lô vem trazendo grandes baladas e uma influência mais pop. Nesse álbum, o músico, mais uma vez, consegue mostrar sua genialidade nas composições com muita sabedoria. 

A magia mineira, por outro lado, é escrita nas belíssimas letras de Márcio Borges, que nesse álbum acima citado fez parceria com Lô Borges, seu irmão, em todas as músicas. O disco ainda traz quatro músicas instrumentais: “Viva”, “Toda essa água”, “Vinheta 78” e “Suíte imaginária”, as quais fecham o álbum.

Beatles foi, talvez, um dos grupos mais influentes que conhecemos. E isso não foi diferente com o Clube da Esquina, mas dizer que é a maior influência do grupo talvez não seja o mais certo. Citei algumas delas, mas acredito que a verdadeira influência do grupo (aí posso parecer um pouco suspeito em dizer já que sou casado com uma mineira) seja a magia daquela terra.

Deixo aqui uma mostra da genialidade de um dos fundadores desse grupo e um gênio da composição em seu mais novo trabalho.