“O lado cego do cinema.”
A ausência de músicos em muitas trilhas tem me deixado preocupado. A tecnologia vem ajudando muito a produção musical e até auxilia na criatividade aumentando as possibilidades de criação.
Têm surgido cada vez mais programas de computador que simulam sons e auxiliam na composição (o que é muito bom). Na verdade, acho que esses programas, de certa forma, até ajudam na criação. Mas o que vem acontecendo (opinião pessoal), é que a importância da música para muitos vem se perdendo, talvez até por essa “facilidade” de hoje.
Essa facilidade em criar (será que é criar?), faz com que nos deparemos cada vez mais com músicas sem a menor inspiração; músicas que estão aí para vender ou simplesmente suprir o ego de quem cria.
Na televisão é fácil perceber quando uma trilha é feita totalmente no computador. A “criatividade” se limita a fazer a trilha pedida pelo produtor sem qualquer tipo de raciocínio. Alguns fraseados de flauta criados no computador, por exemplo, soam totalmente falsos; quero dizer, como é possível aqueles fraseados sem um tempo de respiração? Não sou nenhum especialista no instrumento, mas não tem como não notar a diferença desse som para um real, tocado por um flautista. Nada contra o recurso, até poderia servir perfeitamente para a função, mas o descaso com a música faz com que ela seja deixada cada vez mais para escanteio.
As composições se limitam apenas à utilização de técnicas aprendidas para criar climas de suspense, comédia, romance, mas muitas vezes não funcionam simplesmente por se tratarem de técnicas “frias”. (O quê?). Vou chegar lá (pelo menos tentar).
A falta de dinheiro para produção de uma trilha sonora (Brasil-sil-sil) não deixa que essa área cresça como deveria. Nesse caso, os músicos são obrigados a abandonar orquestras e usarem programas que simulem uma, já que sai bem mais barato do que pagar todos os músicos.
Em muitos casos, a composição no computador funciona perfeitamente e de uma maneira muito legal. Ex: André Abujamra. Voltando ao assunto da flauta, muitas vezes o som produzido pelo computador pode passar despercebido quando feito com conhecimento. Em outros casos, a música acaba se desvirtuando completamente da imagem proposta pelo diretor do filme. (Acho desnecessário usar exemplos aqui). O maior problema talvez seja da mecanização do próprio operador que muitas vezes não tem a menor inspiração e se limita apenas a raciocínios lógicos para a criação.
(Agora acho que cheguei) O maior problema de tudo isso é a falta de vivência musical. É extremamente importante a vivência com os músicos, com a obra e principalmente com o diretor do filme.
O título da postagem foi retirado de uma cena do filme “Cidade dos Sonhos”, de David Lynch. É uma das cenas que mais gosto no cinema, mas vou deixar esse assunto para ser comentado por quem sabe, em outro Blog (Gui, fique à vontade). A trilha foi composta por Angelo Badalamenti, músico parceiro de Lynch em vários filmes.
O motivo da referência do título da postagem com Angelo foi simples. Apesar do filme, inclusive a cena, não ter nada a ver com o tema da postagem, a frase cabia bem (:P) e Ângelo é um dos grandes exemplos de composição de trilha para cinema. Ângelo tem a preocupação e a consciência de que sua trilha irá influenciar diretamente com a narração da cena, então seu diálogo com o diretor é constante.
Quem acompanhou o trabalho do músico, nesse caso até seria legal usar os filmes de Lynch como exemplo, pode reparar como a trilha casa perfeitamente com a cena proposta. No caso dos filmes de Lynch onde muitas vezes há um sul-realismo, Angelo consegue auxiliar com maestria o clima proposto pelo diretor, aumentando a tensão ou o suspense das imagens exibidas na tela. O “ritmo” das imagens e da música caminham juntos.
Enquanto isso os programas de computador para composição estão cada vez mais avançados e têm sim ajudado e muito nas produções musicais. Agora, já não posso afirmar que eles são os causadores da falta de inspiração já que muita música boa é composta com a ajuda deles. Mas, pessoalmente, sinto falta de ver bandas de verdade em certas situações.
“Silenzio. No hay banda. There is no band”.
Algumas trilhas que gosto muito:
• Os Incríveis (Pixar) – trilha de Michael Giacchino
• Indiana Jones / Star Wars / Superman – trilha de John Williams
• Psicose – trilha de Bernard Herrmann
• O Poderoso Chefão - trilha de Nino Rota
• E mais inumeras outras que poderia estar citando aqui mas a postagem ficaria muito longa.
Pós-postagem:
Lembrei de um fato que ocorreu na criação da trilha do “Psicose”.
Hitchcock havia dito para Bernard Herrmann que não queria trilha alguma na famosa cena do chuveiro, ele queria apenas o som ambiente. Herrmann ficou um pouco desapontado e na semana que Hitchcock precisou viajar ele preparou a trilha sem contar ao diretor e inseriram na cena.
Quando Hitchcock voltou e foi assistir a cena pronta (sem ser avisado de qualquer coisa, claro!), levou um baita susto ao ouvir os sons dos violinos criados por Bernard Herrmann. Hitchcock se virou para o músico e disse que nunca mais ele iria evitar de usar uma trilha de Herrmann. Hoje a trilha já é referência e eu não posso evitar de colocá-la nessa postagem.