Certa vez, conversando com Márcio (parceiro na música e nos blogs relacionados a ela), falávamos sobre construção de instrumentos e suas origens. Aliás, esse é um assunto sempre presente e pelo qual me interessei muito. Ainda sonho com um belo violão ou uma bela viola feita por luthier com uma afinação mais precisa.
Porém, a musicalidade de quem tem essa sensibilidade para fazer instrumentos parece ir além. O grande músico Egberto Gismonti (que também pretendo falar mais nesse blog), por exemplo, já fez algumas variações de violão em busca de um timbre mais próprio. Sua inspiração musical não se limitava simplesmente em compor dentro de “sons com timbres já estabelecidos”. Assim como Paulinho Nogueira, (já citado no blog do Márcio) entre outros, que têm a percepção puramente auditiva e estão sempre procurando novos sons e inspiração. Outro que sempre buscou diferentes sons foi Hermeto Pascoal.
Esse, na minha opinião, é um verdadeiro mago/gênio da música. Sua percepção da vida, inspiração e comunicação parecem estar totalmente ligadas ao som e à música. Alguém que consegue misturar com maestria o som de um bule de café, por exemplo, para criar o clima desejado, ou um patinho de borracha, ou qualquer outro objeto que encontre na frente só pode ser considerado um grande músico.
Sou grande fã do multi-instrumentista que tem verdadeiro prazer no que faz. Nascido no município de Lagoa da Canoa de Arapiraca, em 22 de junho de 1936. Hermeto já começou a se maravilhar com os sons, quando ainda muito menino, na serralheria de seu avô, batendo em pedacinhos de ferro que pendurava em um varalzinho. Aos sete anos começou a tocar sanfona de sete baixos e flautas rudimentares feitas pelo próprio músico. Aos oito, ganhou de seu pai uma sanfona de 32 baixos com a qual já começou a tocar nos bailes da região.
Hermeto foi sendo conhecido aos poucos e aos vinte anos foi contratado pela Rádio do Comércio onde acompanhava calouros e comandava uma orquestra. Lá, Hermeto formou, com seu amigo Sivuca, o trio chamado O Mundo em Chamas. Sivuca também é albino e até hoje os dois são confundidos por diversas pessoas.
A ligação de Hermeto com a música sempre foi intensa. Na rádio UNIARA, onde trabalhei, em uma das entrevistas que o músico cedeu a um repórter de lá, mesmo por telefone, ele fez questão de tocar e mostrar seu som.
Quem já acompanhou algum show seu pôde perceber sua paixão. Por ele, o show não termina nunca e por diversas vezes saiu do palco apenas por não poder ficar mais tempo no local onde foi contratado. Entretanto, Hermeto e sua banda saíam tocando em direção à rua e a platéia ia seguindo, numa cena que parecia muito com as crianças e os ratos que seguiam o flautista de Hamelin no conto de fadas.
Hermeto integrou-se ao Trio Novo, que passou a se chamar Quarteto Novo (Hermeto, Théo de Barros, Heraldo do Monte e Airton Moreira), um dos mais importantes grupos da música instrumental brasileira, responsável também por acompanhar Edu Lobo na música campeã do terceiro festival da Record, “Ponteio”.

As pesquisas musicais de Hermeto sempre revolucionaram e renovaram a música. O músico já colocou até dois porcos no estúdio para a gravação do álbum Slaves Mass. Segundo Hermeto, os dois tiveram microfones separados e os cachês devidamente pagos.
O “bruxo dos sons”, como já foi apelidado, também, em 2000, o “Calendário do Som”, onde teve o capricho de compor uma música para cada dia do ano, homenageando assim todas as pessoas do planeta.
Hermeto é com certeza um gênio da música e com um carisma e uma simpatia incomparável capaz de conquistar qualquer um.
O título deste texto vem da música “Chá de panela” (Guinga – Aldir Blanc). “... e até penico dá bom som / Se a inspiração é mais, se o músico for bom ...”
Segue abaixo uma vivência musical de Hermeto em “Música de Lagoa”. Salve Hermeto!