"Anda meio esquecido..."

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

                

 

                Antes de qualquer coisa, gostaria de me desculpar pela ausência. Fiquei em falta com aqueles que acompanham este blog. A correria do dia-a-dia não me deixou tempo para qualquer atualização, mas reforço, foi pura falta de tempo e não de vontade ou esquecimento.

                Não foi planejado, mas essa explicação e a época do ano em que estamos se ligam com a postagem de hoje.

                Entre algumas pautas que fiz ultimamente, está a de Santa Lúcia. Na verdade a matéria era sobre moradias que se localizam próximas aos trilhos de trem.

                Em uma das casas, encontrei uma senhora que ficava apenas observando nosso trabalho, quieta, da porta de sua casa. A imagem me chamou a atenção, tirei uma foto, me aproximei e ela me convidou para entrar. Perguntou se eu poderia tirar uma foto sua ao lado de seu oratório que ela havia montado para as comemorações de fim de ano. Ao entrar, havia um rádio tocando músicas de Folia de Reis, ela se aproximou das imagens dos santos e se posicionou como tal. Fiquei fascinado ouvindo suas histórias e a paixão que ela tinha por essa cultura.Foto: Lucas Tannuri

A festa foi trazida pelos portugueses para o Brasil e à medida que as cidades foram crescendo essa cultura foi se perdendo.

Em Portugal, a festa era feita para celebrar a passagem dos reis magos e tinha um caráter mais festivo. Aqui no Brasil ela passou a ter um apelo mais religioso. Segundo a lenda, Gaspar, Baltazar e Melchior foram do Oriente à Judéia para adorar Jesus Cristo, o qual havia nascido; entretanto, por volta do ano 1600 d.C. que passaram a fazer parte da comemoração do Natal.

A festa tem início no dia 24 de dezembro, véspera de Natal, e prossegue até dia 2 de fevereiro. Nesse período os grupos de folia de reis caminham de casa em casa cantando ao som de violão, sanfona, cavaquinho, pandeiro, reco-reco, pistão, chocalho, triângulo, tantãs e outros instrumentos, exaltando o Deus Menino em busca de oferendas, para realizarem, dia 20 de janeiro, a festa de São Sebastião.

No caminho, eles encenam peças teatrais em um grupo que geralmente é formado por doze pessoas. Vestindo roupas bem coloridas e carregando um estandarte de madeira com imagens e motivos religiosos, eles vão seguindo o mestre e o contra-mestre. Entre os personagens há também um palhaço, que de acordo com a história é responsável por confundir os soldados de Herodes e proteger o menino Jesus. Essas danças e costumes variam de estado para estado no Brasil, onde são mais comuns no interior de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Goiás.

Alguns trechos comuns das cantorias se seguem como os de baixo:

 

“Sôr dono da casa / Alegra o seu coração / Arreceba santo Reis / Com todos os seus folião.

Concluímo este canto / Fazeno o siná da cruz / Pade, Fio, Esprito Santo / Para sempre, amém Jesus.

Santos Reis vai despedindo / Deixando muita saudade. / Vai deixando muita benção  / Pro povo desta cidade.”

 

Com o tempo, muito material dessa festa de folia foi gravado, em sua maioria, por gente simples do meio rural. Porém, como a maioria dos estúdios que eles utilizavam era pequenos, não cabiam todos, ficando assim apenas os dois principais puxadores responsáveis na gravação e que futuramente dariam origem a uma outra cultura rural, as “duplas caipiras”. Duplas essas parecidas com a que se ouvia no CD da senhora de Santa Lúcia.

“Anda meio esquecido mas é dia da festa de Santos Reis”.

Para todos deixo aqui meus votos de boas festas e um 2009 cheio de alegrias e realizações, com muita folia. E da minha parte, também estarei atualizando este blog com mais freqüência. Forte abraço!

 

RECOMENDAÇÃO: METAFÍSICA, MÚSICA E VIVÊNCIA LUMINOSA

domingo, 7 de dezembro de 2008

               Confesso que leituras de entrevistas, biografias e coisas do tipo nunca me atraíram muito. Na verdade não me lembro de ter lido biografia sobre ninguém; a princípio, elas me parecem contar sobre um lado do artista que nem sempre me interessa, como o filme “Ray”, sobre o músico de Ray Charles, elogiado por muitos, mas a mim não agradou. Porém, essa semana, estava fazendo hora no SESC, e entre alguns livros que me interessavam resolvi pegar “GiLuminoso: a po.ética do Ser”, de Bené Fonteles.

Gilberto Gil - "Gil Luminoso"A clareza com que Gil respondia às perguntas de Bené (que também é produtor do disco que encarta o livro), relembrando e relatando com clareza fatos vindos desde sua infância, me impressionaram. De certa forma, “invejo” quem tem memória assim. (A minha passa um pouco longe disso).

O trabalho foi lançado em 2006 pela Biscoito Fino (mais uma vez a gravadora é citada nesse blog. Não é pra menos, os melhores trabalhos lançados ultimamente tem sido através dela) e traz gravações feitas em um só take, sem qualquer ajuste posterior. A voz e violão de Gil mostram um trabalho intimista e traz temáticas como amor, espiritualidade e metafísica.

No livro, Gil conta de sua ligação com a metafísica e com a filosofia ainda moleque. Relata ainda experiências religiosas, sua ligação com drogas e a maneira que algumas músicas foram concebidas.

O álbum traz quinze releituras escolhidas pelo próprio produtor, onde Gil da uma enxugada para arranjos mais intimistas, voz e violão. Entre o repertório, destaque para “O compositor me disse”, feita para Elis Regina e que Gil ainda não havia gravado.

Fica aqui a recomendação para quem quiser conhecer um pouco mais sobre Gil. O livro tem um ritmo de leitura muito bom. Gil, verborrágico, como sempre, nos ensina, quase sem perceber, muito sobre cultura e ajuda a entender ainda melhor sobre suas composições e histórias particulares do Brasil. Vale a pena!

Para os jazzistas de plantão, qualquer semelhança não é mera coincidência. As fotos de Gil para o encarte do trabalho me chamaram a atenção, não só pelo belo trabalho, mas também pela familiaridade que elas me traziam. Elas foram realmente inspiradas em um ensaio fotográfico de Miles Davis como uma espécie de homenagem ao músico.

 

 

 

 

Dica: O músico lançou recentemente um concurso para os internautas. Ele estará premiando os melhores clipes para as músicas de seu mais recente trabalho, "Banda Larga Cordel", produzidos pelos usuários. As inscrições são feitas no site www.bandalargacordel.com.br e o prazo vai até 1º de fevereiro de 2009.

Estudando a Bossa

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

 

 

Tom ZéA Bossa Nova completa meio século. Cheia de "badi-babuns", "bada-badás", "paradás", referências a belas mulheres, um jeito suave, quase tímido de cantar, que acompanhada de um ritmo particular e uma harmonia elaborada, entoava letras falando do cotidiano, amores e desilusões.
João Gilberto, um dos maiores representantes e difusores do gênero, trazia uma maneira de tocar e cantar quase impossível de ser reproduzida. Os tempos entre sua voz e o violão parecem desencontrar por vários momentos, hora a voz adianta em relação à harmonia feita no violão, hora parece deixar que a nota da melodia chegue atrasada no acorde que a espera.
Bob Dylan, músico norte-americano com um som bem diferente da bossa, já disse certa vez que gostaria de cantar igual a João Gilberto. Outros comentários contrários a esse já foram ditos, como o fato de alguns acharem que a única coisa que João faz é sair cantando na frente do violão (besteira por completo de quem não aprecia e não entende o genero).
No final dos anos 60, um outro movimento brasileiro se formou, a tropicália. Esse movimento, completamente diferente da bossa nova, trazia como um de seus representantes, Tom Zé.
Durante todo esse ano, muitas referências à Bossa Nova foram feitas em comemoração a seu aniversário, entre shows, gravações e especiais na televisão. Agora em 2008, Tom Zé, um dos representantes da Tropicália, aos 72 anos de idade, lança seu mais recente álbum, "Estudando a Bossa".
O músico já tinha feito experiências semelhantes como o álbum  "Estudando o samba" (que coloco junto com “Correio da Estação do Brás”, de 1978, como um de seus melhores trabalhos), de 1976; e, "Estudando o pagode", de 2005. Em ambos, Tom Zé conseguiu explorar sua criatividade musical usando ao máximo as características de cada estilo.
Em seu mais recente trabalho, Tom Zé divide o canto com outros intérpretes, como Mônica Salmaso, David Byrne (músico britânico que já teve importância na carreira de Tom Zé no começo da carreira), Badi Assad, Anellis Assumpção, entre outros.
Mais uma vez o músico explora ao extremo o gênero “estudado” e consegue acrescentar novos elementos de maneira brilhante, sem descaracterizar a essência da Bossa.
O álbum foi lançado pela Biscoito Fino e traz uma excelente gravação a altura de Tom Zé, algo que infelizmente o músico baiano não teve no começo de sua carreira.
Além do álbum, Tom também lançou seu DVD "Fabricando Tom Zé".
Agora nos resta continuar estudando Tom Zé.