Fabius nasceu em Santa Fé do Sul – SP, nascente do rio Paraná, onde São Paulo faz divisa com MS e MG. Estudou letras na UNESP, em Araraquara – SP. Atua como compositor, violeiro e vocalista do Trio Tamoyo, que funde tendências da etnomúsica universal com elementos da música pop por meio de instrumentos rústicos (“viola de cabaça”, “um baixo acústico fabricado em 1911” e “uma bateria com montagem inusitada”). É produtor musical e pesquisador de manifestações culturais do sudeste, sobretudo as vinculadas ao cenário rural do século XX. Faz o mapeamento de parte dos artesãos de viola caipira do Estado de São Paulo num contexto cultural completamente descaracterizado pela força do agronegócio vinculado à cana-de-açúcar.
É professor de Língua Portuguesa em Piracicaba, em Jaú, Bariri, Ibitinga, Ribeirão Preto e Orlândia.
Como músico, integrou a banda Dioni Zica no final dos anos 90 até 2006, com que participou da Coletânea “Moda Nova – Caipira POP”, lançada em 2003 pela OBI music. Dessa coletânea também participaram as bandas Matuto Moderno, Fulanos de Tal, Caboclada, Mercado de Peixe e Sacicrioulo.
Fabius participou de importantes Festivais da MPB, como a FAMPOP (Avaré), Botucanto (Botucatu) e o festival de Ilha Solteira.
Compôs Trilha sonora para os filmes “A lata” e “O Profeta das Águas” (ambos de Leopoldo Nunes).
Atualmente finaliza o 1º disco do Trio Tamoyo, “Galo Índio” e concedeu uma entrevista exclusiva para o blog.
Entre Umas e Outras - Como começou sua ligação com a música caipira e a mistura de outras influências dentro de sua música?
Fabius - Minha ligação com a música existe desde minha infância, no sítio de meu avô, em Santa Fé do Sul, acordávamos com os ponteados da viola tocados na rádio. Cresci numa cidade pequena, fundindo os valores urbanos com as tradições rurais muito arraigadas no interior até hoje. Depois de “grande”, com a banda Dioni Zica, já fundíamos elementos da música de raiz com elementos do rock, do blues e outros. Com o Trio Tamoyo, essa mistura de elementos se intensificou. Assumi a viola como instrumento único, ao lado do Otávio Gali com o seu baixo e do Luís André “Piza” na bateria.
... fale de algumas de suas influências e referências na música
Minhas influências musicais vêm muito de tudo que ouvi durante a vida toda. Tive fases de ouvido "mpbista", roqueiro, jazzista, erudito, até uma época em que saía para a estrada e botava um disco de música xavante, carajá, yawalapiti, de batuque de umbigada, rage against the machine etc.
A música sempre teve uma certa ligação com religião e a viola caipira, dentro disso, sempre trouxe muitas lendas e mitos. Qual sua ligação com a religião sendo violeiro?
De fato, a música sempre tem muita ligação com a religião. No Brasil, os povos indígenas exercem sua musicalidade religiosa com muito vigor, marcando o tempo com batidas de pé, maracás, flautas e contos. Os povos oriundos da África também deram muita contribuição à música brasileira por causa de se vínculo com a religiosidade, mas os instrumentos mais desenvolvidos vieram mesmo com o elemento europeu, que trouxeram cordofones (entre os quais a viola), aerófonos (como sanfonas e outras flautas mais desenvolvidas além de instrumentos de percussão primordiais para as manifestações brasileiras vinculadas à religião católica, como as congadas, as folias de reis. Recebi muitos valores cristãos na minha infância, mas, depois que aprendi assimilar esses valores do sincretismo na música brasileira, passei a ver e ouvir a música com outros olhos e ouvidos.
...E como violeiro, é também devoto de São Gonçalo?
Não somente São Gonçalo, mas uma religiosidade muito forte ligada à viola. Uma vez eu estava num rancho em Santa Maria da Serra, no entroncamento que liga o rio Piracicaba com o Tietê, perto de Botucatu, terra de Angelino, Raul Torres e Serrinha, Tonico e Tinoco, entre outros caipiras. Estava sozinho, no escuro, no silêncio, tocando umas coisas antigas. Eu nunca tinha ouvido minha violinha catireira do Kleber Siveira falar tão alto como aquele dia. Era de assustar...
Falando um pouco de equipamentos, você toca uma viola construída por Levi Ramiro, feita de cabaça. Por que escolheu cabaça em vez das madeiras mais tradicionais e qual afinação você usa na viola?
Existem luthiers no estado de São Paulo que fazem violas requintadíssimas, mas, como meu trabalho musical é muito vinculados às raízes da etnomúsica brasileira, achei que as violas de cabaça, feitas pelo Levi tinham muito a ver com a sonoridade que eu buscava. Além disso, os captadores de meus instrumentos e os amplificadores que uso chegam a timbres especiais. Engraçado é que o Gali apareceu com um baixo bem rústico também, feito em 1911, que tem um som singular também. Eu até brinquei com ele: “esse baixo foi construído antes de Angelino Oliveira compor ‘Tristeza do Jeca’”.
...Você também utiliza efeitos que não são muito comuns na viola, como Delay, wah wah e até mesmo distorção. Essa influência do rock na sua música já sofreu algum tipo de preconceito?
Por parte do público que tem ido aos shows do TrioTamoyo, não! Tocamos em várias cidades para pessoas que gostam de música, independente de rótulos e tem sido muito legal a receptividade. Existe uma grande massa que vai assistir às duplas sertanejas, grupos de pagode ou axé porque há um grupo de empresários que escolhem o que a grande maioria vai ouvir, mas existe uma quantidade não desprezível de pessoas que não aceitam esse enquadramento dado pela mídia.
... Como pesquisador de luthiers pelo estado, o que você percebe nessa profissão? Acha que o numero de luthiers tem diminuido?
Temos feito esse levantamento e o que ocorre é exatamente o contrário do que se pensa. Embora ocorra a imposição feita pelos meios de comunicação, muitos meninos tem buscado as violas artesanais ou mesmo as industrializadas. Uma vez em que fomos tocar em Catanduva, liguei para o Renato Vieira das violas Xadrez e ele fez um comentário muito animador. Nos anos 80, fabricacam-se uma média de 50 violões por mês enquantos se fabricava uma viola. Hoje essa tendência foi invertida pelo mercado consumidor. Para os luthiers como o Luciano Queiroz, o Joacyr, o Sforcin, entre muitos outros, existe uma fila de espera considerável para a aquisição de uma viola. Pelo que sei, até o conservatório de Tatuí oferece um curso de luthieria, o que abre novas possibilidades para a projeção do intrumento para o século 21.
Mudando de assunto... Qual sua opinião sobre essa discussão de pirataria e internet? Você que perpassa por todos os estilos musicais não acredita que a pirataria ajudou a divulgar muita música que estava escondida, principalmente as caipiras e as menos “midiáticas”? Como isso ajuda no seu trabalho?
Acredito em que novas mídias tenham democratizado as a informação. O próprio sucateamento de máquinas vinculadas a esse universo digital tem facilitado a instalação de lan houses nas periferias do mundo. Por essa razão, pessoas se interligam num processo de comunicação que também divulga muita música baixada em fontes “piratas”. O cd está com os dias contados e ainda custa o impagável. A internet, porém, tem permitido que em três meses, mais de mil pessoas conhecessem meu trabalho musical no www.myspace.com/fabiustriotamoyo. Isso é realmente um novo momento para a música.