Ontem voltei a fazer aula de violão. Consegui. Depois de muito tempo parado quase sem tocar em nenhum instrumento, consegui arrumar um tempo para voltar a fazer aula com o mestre Carlos. Logo que cheguei vi novidades; um cavaco novo, um bandolim, mas o que mais me chamou a atenção foi um antigo cuatro venezuelano. Eu sabia que ele tinha, mas ainda não tinha visto; dos latinos, tinha visto apenas o charango - ele já havia me mostrado outra vez.
Pedi para que ele tocasse algo do repertório venezuelano, ele se sentou e começou a tocar um merengue. Enquanto ele tocava pensei: Mão direita.
De tudo na música o que mais me chama a atenção é o ritmo. Não poderia ser diferente. Em nosso cérebro, de uma maneira geral, o ritmo é o primeiro a ser identificado em uma música, seguido da melodia e por último a harmonia. Não é à toa que logo vemos alguma criança “chacoalhando” o corpo quando ouve alguma música com ritmos marcantes.
Lembro-me da primeira vez que fui fazer aulas de violão com o Carlos há um tempo atrás. Ele me perguntou o que eu buscava; e entre muitas coisas que passavam por minha cabeça, uma das que pesquei para falar foi Dorival Caymmi. Mais uma vez, mão direita. Dorival tem um violão tão característico quanto sua voz. Não é o violão mais sofisticado, imagino que ele não era um grande estudioso da música, mas tinha uma mão direita como ninguém, sem contar naquela baixaria toda na mão esquerda.
A coincidência de ontem quando voltei a fazer aula, é que a primeira música que pegamos para tocar foi uma do Caymmi.
É difícil dizer qual a importância da música brasileira no cenário mundial, mas que essa mão direita faz parte disso, faz.
Outro que logo vem à cabeça, quando o assunto é violão, é Baden Powell, mais um que deixou um buraco na música brasileira impossível de ser substituído. Agora que cheguei no Baden posso tentar completar a postagem do blog da Miranda.
A troca de musicalidade que Vinícius e Baden tiveram em suas parcerias foi muito clara como a própria Fernanda Miranda citou em seu blog. Vinicius não era só um poeta, mas também um grande compositor.
É muito diferente escrever poesia e escrever letra para música, e as composições de Vinicius mostram bem o seu lado musical. Ele era um grande melodista e sabia encaixar muito bem letra e melodia. É muito comum ver belas melodias com belas letras mas que no final parecem não se acomodar com naturalidade. E isso Vinicius fazia com extrema tranqüilidade. O que Baden fez foi dar uma chacoalhada (literalmente) com sua mão direita nas letras de Vinícius. Apesar do próprio Baden ter rejeitado os chamados “afro-sambas” compostos por essa parceria, essa foi uma das parcerias mais marcantes na música brasileira. Baden, apesar de seu semblante calmo, tinha um violão nervoso, até pesado algumas vezes. Como diria o também grande músico Vicente Barreto: “A mão direita leva o coração...”
Enfim, não há como sair ileso de uma parceria. Há sempre uma troca, e nesse caso uma das mais ricas da música brasileira.
Baden e Vinícius, desculpem a ousadia nessa postagem.
Para os demais deixo um vídeo de Baden Powell, “Lapinha”, parceria com Paulo César Pinheiro. E dá-lhe mão direita!
Saravah!
Até a próxima!