Após alguns anos ao lado da minha grande amiga Advogada Márcia Destefani, criei coragem para voltar ao passado e recordar da ultima grande façanha da Associação Ferroviária de Esportes no Campeonato Paulista da Primeira Divisão. A ferramenta que me levou para esse túnel do tempo foi uma fita cassete de cor laranjada, presenteada por um grande amigo. Esta graciosidade não se trata de um simples presente, mais sim a uma eterna lembrança de uma partida de futebol do quadrangular final entre Ferroviária X Portuguesa de Desportos, realizada no estádio da Fonte Luminosa. As emoções do passado me levaram ao dia 12 de Dezembro de 1985 com a minha lembrança de um menino com sua ingenuidade dos 12 anos com esta fita narrada por uma brilhante locução. Era um domingo de calor, ao entrar no estádio, levado pelo Pai com meu irmão mais velho, vi as arquibancadas lotadas com os integrantes das torcidas organizadas da Locomotiva Grená tremulando suas bandeiras escritas AFE, na voz dos torcedores a gritar AFE, AFE, AFE, e claro, além da partida, minha diversão era chupar picolé e comer pipoca preparada carinhosamente pela Dona Dirce Vinte e Cinco.
A equipe Grená imbuída em vencer em casa a Lusa, mandou a campo o goleiro Washington, um gigante que era considerado uma muralha. Balú, lateral direito com um vigor físico invejável para defender e atacar pela ala direita. Mauro Pastor elegante na sua postura de desarmar os atacantes. Marco Antonio toque refinado ao roubar a bola dos atacantes e Nonoca ofensivo lateral esquerdo.
O meio de campo, esse era de respeito, Paulo Martins, era o dono da camisa 5, posteriormente passou pelo São Paulo e Flamengo. O araraquarense Sidney, pequeno no tamanho porém gigante na marcação e no apoio ao ataque do time afeano. Wilson Carrasco lançamentos geometricamente precisos, castigando os goleiros com suas cobranças de faltas certeiras.
O ataque formado por Serginho Dourado na ponta direita, e na ponta esquerda Nenê, que fazia um inferno na vida dos defensores com jogadas desconcertantes. Os dois serviam o gigante centroavante artilheiro Marcão, cabeçadas certeiras, protegia a bola como ninguém e sabia fazer a função de guardar a gorducha.
A Lusa do Canindé comandada pelo Técnico Jair Picerni tinha o goleiro Serginho, Luciano, Luís Pereira, Eduardo e Albéris; Célio, Toninho e Edu Marangon; Toquinho (Jorginho), Luís Muller e Esquerdinha.
A Ferroviária com uniforme grená e a Lusa com a camisa listrada horizontalmente nas cores verde, vermelho e branco. A partida terminou empatada em 2 x 2. Dois gols do majestoso Wilson Carrasco. A perfeita narração na fita ouvida conseguiu formalizar as imagens vistas naquela tarde de domingo entre os detalhes presenciados por aquele garoto.
O Presidente, saudoso José Alberto Gonçalves, o “Gaeta”, junto com Álvaro Waldemar Colino Junior (homem do caderno preto), que é conhecedor como ninguém dos inúmeros jogadores espalhados por este país de meu Deus, e os demais Diretores, concediam todo apoio ao Técnico Olivério Bazani Filho para a manutenção da brilhante campanha que antecedeu a esta partida. Lembrando que a nossa Ferrinha somou 43 pontos, deixando na sua rabeira o Corinthians com 42, Santos 40 e Palmeiras também com 40 pontos.
Na segunda partida a Ferrinha foi derrotada por 2 x 0, em uma noite que os isqueiros dos torcedores foram acendidos para iluminar o estranho black-out do Canindé. A esquadra grená alcançou a quarta colocação, o grande campeão foi o São Paulo, ou melhor, os “Menudos do Morumbi” Silas, Pita, Müller e Careca, comandados por Cilinho, que no segundo turno, chegou à última rodada com um ponto de vantagem sobre a nossa Ferroviária e dois sobre Guarani e Palmeiras. Porém venceu o Noroeste de Bauru e sagrou-se campeão do returno, classificando-se às semifinais ao lado de Guarani e Ferroviária, terceiro e quarto maiores pontuações na soma dos dois turnos.
Nas semifinais, o São Paulo, segunda melhor campanha dos turnos, empatou o primeiro confronto com o Guarani em 1 a 1 e venceu o segundo por 3 a 0. A melhor campanha dos turnos, a Portuguesa que elimonou a Ferroviária na semi final ficou com o vice campeonato. As ressalvas ficam por conta da verdadeira e ultima grande façanha da nossa AFE comandada por estes ilustres Diretores abnegados em prestar seus serviços com tamanha honra e qualidade.
Essa passagem jamais será esquecida, a alegria de reviver este momento está registrada pelas vozes dos grandes radialistas que faziam parte do “Timaço do Rádio” da Radio Cultura de Araraquara. A narração de Antonio Carlos Araújo com uma perfeita dicção, verbalizando a linguagem do mundo da bola com tamanha elegância. José Conde Sobrinho, tecendo os comentários com tamanha precisão técnica. As reportagens em campo feitas por Beto Correia contando os lances emocionantes com a voz entusiasmada. Vagner Bellini (in memorian), o nosso eterno Vagninho Legal, colocando a sua experiente categoria através da sua conhecida voz para registrar as jogadas com detalhes a ponto de a perfeição atingir a visualização lúdica da imagem do lance através das ondas do rádio. No plantão de informações o alegre e competente ainda com voz de menino, o eterno jovem Chico de Assis.
O tempo é vertiginoso, estou próximo dos quarenta anos, aguardando viver uma nova emoção semelhante. Enquanto isso meu amigo Antonio Carlos Araújo (Araçá), tenho comigo o inicio da missão de não deixar morrer uma parte da história da Ferroviária contada por estes monstros da comunicação do rádio de Araraquarense a se distanciar do passado, a ponto de se perder na memória dos jovens torcedores da nossa querida Associação Ferroviária de Esportes e dos ouvintes que torciam através da sua voz.
Prof. Giovani Henrique Peroni
Educador Físico e Especialista em Ergonomia.