Quando criança, sempre sonhei em ser astronauta. Nas minhas crises de bronquite, meu pai sempre me levava de carro para passear na estrada. Nosso destino era próximo ao Parque do Pinheirinho, área arejada, sempre cheia de eucaliptos.
Ele acordava de madrugada e me levava para ver o céu. Sempre sonhava em pegar meu foguete e chegar às estrelas. O tempo passou. Fiz faculdade de Geografia e cursei dois anos de Publicidade e Propaganda. Meu sonho de ser astronauta foi para o espaço. Mas o sonho do meu pai, em ter um filho seguindo sua profissão, foi realizado.
Sempre vivi dentro de redações de jornais e estúdios de rádio. Ajudava o ‘Vaguininho’ em várias em coisas. Pegava resultados de jogos e matérias para ele ler no ar. O jornalismo esportivo já estava no sangue, mas eu teimava em ignorá-lo.
Em 2001 vim trabalhar na Tribuna Impressa. Não comecei na editoria de Esportes. Comecei como estagiário, fazendo rádio-escuta, organizando pautas e trabalhando como secretário de redação. Quis o destino que, alguns meses mais tarde, eu fosse trabalhar junto com meu pai redigindo o caderno de Esportes da Tribuna.
Ele sabia diferenciar bem o lado profissional do familiar. Levei vários puxões de orelhas no começo. “Você entende o que você escreve? Coloque-se no lugar do leitor. Escreva para ele [leitor], não para você”, dizia ele, para completar em seguida: “Nunca omita os fatos.”
A Tribuna foi minha faculdade de jornalismo. Professor melhor não poderia haver. Passei sete anos da minha vida trabalhando diariamente com meu pai. Nós nos entendíamos pelo olhar. Nos falávamos pouco. Tínhamos nosso jeito de gostar um do outro.
Há duas semanas, peguei o ‘velhinho’ e o coloquei no carro para passear. Era um domingo. Mal sabia que seria nossa última voltinha. Mas quis levá-lo para alguns lugares especiais. Talvez seja aquela coisa de pressentimento. Que algo estaria por vir. Só Deus sabe.
Levei-o para conhecer a Arena da Fonte Luminosa. Vimos tudo por fora. “Não é que está bonita mesmo? Vai ter elevador para imprensa?”. Ele me fazia várias perguntas.
Depois fomos ver meu apartamento, que ainda está em construção. “Qual andar vai ser? Quando entrega? Parabéns.” Levei meu pai também para passear pela Vila Xavier. Passamos em frente a casa onde ele nasceu, na Rua Treze de Maio. Quando ele ficava emocionado, segurava o choro – puxei a ele neste quesito.
Nossa voltinha terminou com um belo sorvete, na sorveteria da esquina de casa.
Alguns dias depois, no dia 26, Deus o chamou. Sei lá. Acho que estava precisando de uma força lá em cima. Alguma transmissão divina estava desfalcada de um plantão, ou mesmo de um repórter. Sua missão estava cumprida na Terra.
No final fica uma certeza. Realizei o sonho dele, de ter um filho seguindo seus passos, e ele realizou o meu, de conhecer as estrelas.
Na semana que vem iremos publicar um Olho Vivo inédito, com as últimas anotações do glorioso Wagner Bellini. Ele fala sobre o rebaixamento da Ferroviária à Série A3 do Campeonato Paulista. Adivinhem? Não poupou ninguém.
Saudações grenás.
Emerson Bellini